“Lula acertou, mas errou” ou “Lula errou, mas acertou”?

A polêmica fala de Lula foi a seguinte:

“O que eu vejo? Quando eu vejo os discursos dessas pessoas, quando eu vejo essas pessoas acharem bonito que ‘tem que vender tudo o que é público’, que ‘o público não presta nada’, ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus. Porque esse monstro está permitindo que os cegos comecem a enxergar que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises. Essa crise do coronavírus, somente o Estado pode resolver isso, como foi a crise de 2008”

Depois da repercussão, Lula pediu desculpas pela frase, dizendo que a frase foi infeliz.

Porém, o que quero analisar aqui é outra coisa. Por que a mídia chamou tanto a atenção pelo suposto “erro” de Lula? Para condenar o que ele errou ou para esconder o que ele ACERTOU? Em meu ponto de vista, para fazer as duas coisas. Condenar o que ele errou, mas também e principalmente esconder o que ele acertou.

“Lula acertou, mas errou” ou “Lula errou, mas acertou”?

Vamos ao primeiro caso: “Lula acertou, mas errou”. Lula acertou ao dizer que o Estado precisa SIM estar na vida das pessoas, para cuidar da vida das pessoas, principalmente os mais pobres. A mídia tradicional não deu destaque para o acerto, focou apenas no erro. A mídia não levou em conta o que Lula acertou, e falou só do que ele errou, ou seja, “Lula esqueceu, em um lapso, a dor das mortes advindas durante a pandemia”, e para a mídia tradicional, se alguém esquecer dessa dor, tem de ser atacado, faz isso também com o Bolsonaro, por que pouparia Lula? Não seria coerente da parte da mídia tradicional, há até uma explicação lógica aí, ao contrário de alguns petistas que simplificaram o problema e disseram apenas que a mídia estava atacando Lula, mas o buraco é mais embaixo, há todo um discurso sendo construído no país para construir outra hegemonia política, que não seja nem Lula e nem Bolsonaro, não sejamos ingênuos. Lula poderia ter acertado somente, sem errar. Mas, se tivesse apenas acertado, não teria Ibope sua fala. Ainda bem que Lula errou? Ou infelizmente Lula errou? Fica a grande questão. De qualquer forma, se “Lula acertou, mas errou”, o foco maior ainda é no erro, não é no acerto. O conectivo adversativo “mas”, ao ter antes dele uma frase positiva “Lula acertou”, por conseguinte traz uma fala negativa a posteriori, isto é, “mas Lula errou”. Porém, nem essa hipótese foi tratada pela mídia. A mídia escondeu o ACERTO de Lula. Para a mídia tradicional não foi considerada a hipótese de que “Lula acertou, mas errou”. Para a mídia, Lula somente errou.

Vamos ao segundo caso: “Lula errou, mas acertou”. Alguns partidários do ex-Presidente Lula, e o próprio Lula, ficaram com essa interpretação. Lula acertou, mas não precisava ter falado o fatídico operador argumentativo “AINDA BEM QUE…”. Ao usar esse operador concessivo, Lula pretendia, mesmo que inconscientemente, antecipar um argumento negativo, o vírus, para depois falar de uma coisa positiva “A PRESENÇA DO ESTADO NA VIDA DAS PESSOAS”. É isso que Lula quis argumentar, o vírus é um MONSTRO, mas esse monstro negativo trouxe algo POSITIVO: O ESTADO PRECISA ESTAR PRESENTE NA VIDA DAS PESSOAS. O problema é que o operador argumentativo “AINDA BEM QUE”, embora tenha valor concessivo, cuja função é antecipar uma ideia negativa ou positiva a depender do contexto, traz a palavra “BEM” que apaga um pouco o valor NEGATIVO da frase “AINDA BEM QUE SURGIU UM MONSTRO CHAMADO CORONAVÍRUS”. Se Lula tivesse usado outro conectivo, se tivesse usado o sinônimo concessivo “EMBORA”, ao invés de usar um conectivo concessivo coloquial, teria escapado da polêmica. Bastava Lula ter dito, EMBORA TENHA SURGIDO UM MONSTRO CHAMADO CORONAVÍRUS QUE TEM PROVOCADO TANTOS ESTRAGOS NA HUMANIDADE, ESSE MONSTRO FEZ OS CEGOS ACORDAREM QUE A POPULAÇÃO PRECISA DE MAIS ESTADO E NÃO DE MENOS ESTADO. Lula errou na escolha do vocabulário, ao colocar o coronavírus como DE CERTO MODO POSITIVO e não apenas NEGATIVO, como o senso comum espera e como a mídia tradicional está fazendo, ao politizar a pandemia. Lula, ao usar esse conectivo “AINDA BEM QUE” e não OUTRO, quis destacar o argumento, em seu ponto de vista, de que o vírus, apesar de ruim, de ser um monstro, trouxe um aprendizado POSITIVO de que PRECISAMOS DE MAIS ESTADO E NÃO DE MENOS ESTADO. Na relação concessiva, na linguagem, é em geral assim, se o primeiro argumento é negativo, o segundo é positivo; se o primeiro argumento é negativo, o segundo é positivo; se o primeiro é só um pouco positivo,  o segundo é muito positivo; se o primeiro é só um pouco negativo, o segundo é muito negativo. No discurso de Lula, o vírus é um monstro, mas tem algo positivo nesse monstro, que é acordar as pessoas para a necessidade DE MAIS ESTADO E NÃO DE MENOS ESTADO, ou seja, no discurso de Lula foi usada a seguinte relação “o primeiro argumento, apesar de ser visto apenas como negativo, tem algo positivo nele, que é trazer como consequência algo muito mais positivo, acordar os cegos que não enxergam a importância do estado”.  A mídia focou na carga de certa forma POSITIVA que Lula usou na descrição do vírus para dizer que ele estava menosprezando as mortes das pessoas. A mídia aqui foi maldosa, porque não acredito que seja do perfil do Lula menosprezar a morte de pessoas. Quem anda sendo indiferente com as mortes por aí é alguém que diz “E daí?”, ao ser informado sobre o número de mortes da pandemia Mas também aqui um fato chama a atenção, a mídia tradicional escondeu o ACERTO DE LULA. E a mídia tradicional também deve ter ficada incomodada com a verdade que Lula disse “alguns são cegos para a importância do estado”. A mídia tradicional é uma das cegas, a carapuça serviu, doeu.

A mídia quis fazer valer apenas um fato da fala de Lula: LULA ERROU. Ou seja, a mídia discutiu apenas o senso comum do problema, a dor que as mortes estão causando na vida das pessoas. Ao fazer isso, é preciso entender que a mídia tradicional tem um projeto, ao politizar a pandemia. Os bolsonaristas não estão errados ao dizer que a mídia está politizando a pandemia. Mas os bolsonaristas também politizam a pandemia. Lula também estava politizando a pandemia. A mídia está politizando a pandemia. De qualquer modo, a mídia tradicional, ao dar repercussão para a fala supostamente errada de Lula, apagou uma coisa muito importante que Lula disse: É PRECISO MAIS ESTADO PARA CUIDAR DA POPULAÇÃO, NÃO MENOS ESTADO. É isso que incomoda a mídia tradicional, não é a pandemia em si, o que incomoda é ter de falar de algo que a mídia tradicional insiste em negar, a NECESSIDADE DE MAIS ESTADO.

A mídia não concorda com o ACERTO de Lula. A mídia e os capitalistas querem MENOS ESTADO. Não gostam da política de MAIS ESTADO, defendida por Lula.

Lula pediu desculpas pela armadilha das palavras em que ele caiu, fazendo um discurso condenado pela mídia tradicional, ou seja, ninguém pode tirar lição acerca do coronavírus, a não ser a família Marinho e a família Frias. Mas uma coisa é certa, Lula não precisa pedir desculpas pelo que ele acertou e pelo que a mídia quis esconder: PRECISAMOS DE MAIS ESTADO, SIM, NÃO DE MENOS ESTADO NA VIDA DA POPULAÇÃO TRABALHADORA E POBRE DESSE PAÍS. Vamos ao debate claro, sem ficar usando a pandemia para fazer mimimi político.

Por: Gílber Martins Duarte – Militante SOCIALISTA LIVRE – Doutor em Análise do Discurso/UFU – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais – Diretor do Sind-UTE Subsede Uberlândia – EDITOR dos BLOGs: https://professorgilber.wordpress.com/

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