Considerações sobre o golpismo em curso (2)

O pacto de conciliação de classes de tintas bonapartistas, que marcou os governos do PT, não poderia durar muito- e o resultado da votação na Câmara dos Deputados, no último dia 17 de abril, que autorizou o Senado a instaurar rito de impeachment, é prova disso. Conforme temos alertado, as forças reacionárias têm pressa em recuperar os prejuízos e os espaços perdidos desde a crise do capitalismo de fins de 2000, e portanto têm movido uma ofensiva sem cartel, em todas as instâncias -militares, políticas, econômicas, institucionais, culturais- e em todas as partes do mundo. Tal ofensiva reacionária tem se destacado em nosso continente, seja com a vitória de Macri e seu neoliberalismo em doses cavalares na Argentina, seja nas derrotas de Maduro e Evo nos referendos de 06/10/15 e 21/02/16, respectivamente. E também no Brasil, com a oposição de direita em ampla frente de ação (de apoiadores da ditadura civil-militar de 64 ao fundamentalismo cristão, passando pela corrupção fisiológica, o grande latifúndio e bandidos em geral, incluindo o reacionário aparato judiciário-policial, de Moro ao STF) logrando vitória atrás de vitória contra o combalido governo de Dilma Rousseff.
A iminente derrocada do PT mostra o acerto da nossa análise, em outubro de 2014, que dentre outros motivos nos levou à ruptura com o Partido Comunista Brasileiro. O partido, cedendo ao doce -e confortável- canto da sereia do esquerdismo, deu um giro sectário em relação aos anos anteriores e desceu a ordem pelo voto nulo no segundo turno das eleições presidenciais. Para nós, que defendemos internamente o voto nulo nos segundos turnos de 2006 e 2010, a conjuntura mudara; não apenas o PT se revelava mais enfraquecido em relação aos outros anos, como a oposição de direita se mostrava mais raivosa e anticomunista do que nunca. Ademais a diferença entre Dilma e o tucano Aécio Neves era mínima. Conforme Lênin nos ensina em “Esquerdismo…” dando como exemplo a experiência do partido bolchevique, o boicote ao institucionalismo em um ano pode ser acertado, mas no ano seguinte equivocado e vice-versa; é preciso noção de momento (jamais imune a erros, é verdade) para saber quando e como agir na conjuntura. Assim, nós que defendemos o voto nulo nos segundos turnos de 2006 e 2010 entendemos que 2014 pedia posição diversa, ou seja, o voto crítico no PT. O PCB tomou o caminho inverso: votou no PT quando não era crucial -2006 e 2010- e, quando o momento enfim requisitara a unidade de ação contra a direita mais reacionária, capitulou ao esquerdismo e votou nulo como um “puro” revolucionário.
As coisas só se agravaram, desde fins de 2014, com a tentativa de “terceiro turno” no tapetão forçado pelo PSDB. A direita ocupava novamente as ruas, em suas marchas de batedores de panelas teleguiados pelo Jornal Nacional evocando o que há de mais atrasado no espectro político- até o retorno da monarquia! Ao mesmo tempo investia contra o governo Dilma com todas as armas institucionais disponíveis, do TCU com as “pedaladas” ao TSE com o julgamento das contas de campanha, cuja relatoria ficou a cargo de ninguém menos que o tucano Gilmar Mendes, o que mostra a grande piada que são a “neutralidade” e a “imparcialidade” das instituições burguesas. O governo “reagia” à ofensiva cedendo mais e mais, acreditando que poderia aplacar a sanha reacionária. Ledo engano: conforme falamos acima, a burguesia internacional tem pressa. O PT se mostrou funcional até certo ponto; já não é capaz, porém, de saciar os interesses do capital no ritmo desejado. É por isso que desde Washington a engrenagem golpista está a pleno vapor.
Ainda que estejamos muito distantes de cenários de grave convulsão social (como guerras e revoluções), muitas organizações e militantes ficaram confusos nesta conjuntura, alguns girando à esquerda, outros à direita, ou, ainda, simplesmente acompanhando a tudo de cima do muro. Mas a luta de classes é implacável e não pede licença. Conforme diz Trotsky:

(…) as organizações revolucionárias sérias se preparam para atuar, justamente, em “circunstâncias excepcionais”. [“Stalinismo e bolchevismo”, 1937]

É que a vida real é a grande prova de fogo, para além do ar condicionado das salas dos comitês centrais de onde baixam as pernósticas resoluções. Nesse sentido, registramos que o MRT (ex-LER QI) nos surpreendeu positivamente, ao chamar, ainda que com retardo, a luta contra o golpe, luta essa que o PCO desde o início tem encampado. A histriônica LBI, autoproclamada a “genuína trotskysta”, mostra alguma lucidez por baixo da gritaria. O PSTU, por sua vez, segue em seu esquerdismo delirante chamando o “fora todos” -delírio ao qual se junta, na atual conjuntura, o chamado para uma nova assembleia constituinte- mas sem adotar a posição verdadeiramente criminosa e traidora, do ponto de vista classista, de seitas como o MNN/TL e MRS, que chegaram a exigir a prisão de Lula, em verdadeira unidade de ação com o reacionário aparato policial-judiciário do torquemada Sérgio Moro.
E o que dizer da pusilanimidade do campo governista, agrupado em torno da Frente Brasil Popular? Respondem à escalada golpista com showmícios. Nada de greve geral ou ocupação de fábricas e fechamento de estradas (quem bravamente tem estado na vanguarda desses atos é o MTST, da oposicionista de esquerda Frente Povo Sem Medo), e sim discursos de quadros governistas pregando a conciliação de classes. Desmoralizado, o governo e seus satélites já parecem admitir novas eleições gerais (o PCdoB já deu a largada).
Desde o início temos deixado claro: o nosso chamado à frente única antigolpista nunca, em momento algum, significou apoio ou capitulação aos governos do PT. Ombreamos com o campo governista contra a oposição de direita porque sabemos que tais setores, que são alinhados ao imperialismo, pretendem um ataque ainda mais brutal contra os trabalhadores. A “Ponte para o [sinistro] Futuro” do PMDB é todo ele, textualmente, o neoliberalismo em estado puro. Contra tal retrocesso, defendemos a FRENTE ÚNICA com os governistas sem pestanejar. Bater junto e marchando separado, ou seja, mantendo nosso próprio programa e liberdade de crítica- tal unidade de ação pode ser feita “até mesmo com o diabo e sua avó“, como diz Trotsky em seu chamado pela construção de uma frente única operária contra o fascismo. Os esquerdistas infantis não são capazes de entender isso. Pensam que ombrear contra um inimigo em comum significa capitulação ou submissão ao aliado conjuntural. Como o PCB, que no dia 17/ 03, enquanto as forças mais reacionárias da sociedade votavam no parlamento pelo impedimento de Dilma, evocando o discurso mais retrógrado, anticomunista e fundamentalista (com direito a exaltação do regime civil-empresarial de 64 e seus carniceiros), dizia que não iria às ruas participar “dos atos em defesa do governo Dilma/Lula” (aqui). Como se tudo se resumisse a “defender o PT”. Como diz Trotsky no “Programa de Transição”, os sectários “simplificam a realidade para não cair em tentação“.
Contra o esquerdismo, seguimos convocando à frente única, englobando na unidade de ação todo o campo popular, progressista e de esquerda, INCLUSIVE os governistas e satélites. Não há “terceiro campo”, e as seitas que falam em alternativa independente não têm o menor lastro operário e popular e apenas repisam bravatas. Tendo em vista que nossa atuação é independente, não desanimamos diante da covardia dos petistas. Não é em sua defesa que lutamos- e sim da classe trabalhadora.
Por: J. L. Tejo – ESPAÇO MARXISTA – FRENTE RESISTÊNCIA
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