“Não nasci mulher, tornei-me mulher”, Simone Beauvoir!

Temática do ENEM/2015 já foi por dois anos seguidos matéria de discussão feita por nós, no Blog www.socialistalivre.wordpress.com , no Dia de Luta Internacional da Mulher. Em outras palavras, há que se ter uma visão geral das grandes ideias do mundo para se sair bem inclusive nos processos seletivos. Vejam o texto que temos discutido, baseado nesse princípio teórico da socialista livre francesa Simone Beauvoir:

“Para homenagear o dia da luta internacional das mulheres, queremos partir dessa bela afirmação da grande filósofa feminista, Socialista Livre, radical defensora da liberdade comprometida, autora de O Segundo Sexo, Simone Beauvoir. Partindo do princípio existencialista-marxista de que “a existência precede a essência”, os Socialistas Livres, ao longo da história, sempre recusaram pensar uma essência primeira para o gênero feminino, em outras palavras, primeiro o ser existe, depois, em liberdade, exerce escolhas que vão criando a constitutividade político-discursivo-ideológica desse sujeito social, não importa se este ser nasce como um corpo dotado de genitálias masculinas ou femininas.

Qual a radicalidade desse princípio existencialista-marxista de que “a existência precede a essência”, quando vamos lutar por lugares outros para a mulher na sociedade? Exatamente o fato de que o lugar econômico-social-ideológico-político-discursivo da mulher é construído socialmente, logo, não passa de pura dominação ideológica querer traçar um destino e uma essência moral para a mulher se encaixar, destino e essência, estes, muitas vezes construídos sob a ótica de atender o interesse dominador daqueles que possuem corpos com genitálias masculinas. O que Simone Beauvoir anuncia é a radicalidade de que cada mulher singular é livre e responsável para criar sua própria moral existencial, bem como livre e responsável para lutar por espaços econômico-sociais que retirem a mulher da condição de corpo destinado a viver “supostas essências femininas” traçada pela ditadura dos machos.

Acreditar que existe, enquanto essência, um “lugar da mulher” na sociedade seria uma atitude comodista, subserviente e equivocada, retirando da mulher exatamente a sua única força capaz de criar seu próprio destino, a sua liberdade de escolha em traçar caminhos diferentes, inclusive os considerados “impossíveis para a mulher”. Portanto, o que existe, sim, é uma construção econômico-ideológico-jurídico-discursiva-social que, criada com base em opressões e dominações, tenta enquadrar a mulher em papeis não escolhidos por ela própria.

Estamos com Simone Beauvoir, a mulher não tem de seguir nenhuma “moral feminina”, por medo de deixar de ser mulher. Todas as morais criadas para a feminilidade, desde usar saia frufru a depilações e cirurgias plásticas aparentemente naturais para alimentar a sede de lucro das indústrias cosméticas, passando pela tortura de ser “a responsável pelos serviços domésticos” ou de ser “a responsável por cuidar dos filhos”, até ser o objeto sexual monogâmico do homem, não passam de “morais e essências construídas” que servem tão somente para criar um padrão do ser mulher na sociedade. E a quem interessa padronizar os corpos das mulheres ou padronizar esse jeito de ser mulher? Basta exercer a postura crítica que veremos a que serve cada “moral social” construída para a mulher. Existe toda uma parafernália ideológica para fazer a mulher acreditar que o “ser mulher” é algo eterno e imutável, quando tudo isso não passa de dominações de mau gosto que tiram toda a criatividade e toda liberdade da singularidade de cada mulher, colocando-a em lugares sociais perpassados por opressões cotidianas.

Até em brincadeiras, aparentemente inofensivas, como brincar de boneca, constrói-se um lugar para mulher na sociedade, como se o corpo feminino, desde criança, fosse incapaz de inventar seu próprio destino, tendo de resignar-se a cuidadora de bebês. Existem movimentos permitidos e movimentos proibidos para o corpo feminino, como se a mulher fosse incapaz de criar e assumir seus próprios movimentos corporais. Assim, sem direito à liberdade de movimentar o próprio corpo a seu bel prazer, é um passinho para, nesse jogo de dominação ideológica, tirarem da mulher a liberdade também de decidir sobre o próprio corpo, tornando-a um ser infeliz, pois um corpo escravizado não pode ser feliz. O corpo da mulher é cobrado a aparecer socialmente de acordo com determinados padrões de moda e beleza, como se a mulher tivesse de ser aquilo que estipulam para ela e não o que cada mulher singular estipula para si mesma.

À mulher também, estupidamente, coloca-se o fardo ideológico-econômico de cuidar dos filhos, como se a responsabilidade de procriar a espécie humana fosse exclusiva de um único corpo, o feminino. É absurdo o número de filhos morando apenas com as mulheres, enquanto os machos ficam soltos e livres para fazer outros órfãos. A que serve essa “moral da generosidade feminina” que a responsabiliza por cuidar moralmente dos filhos? Muito triste, não é verdade?. E pior, como o próprio Estado Capitalista Burguês é gerenciado sob a ótica dos machos, em uma compulsão pela economia de gastos, nunca foi prioridade absoluta a construção de creches diurnas e noturnas, onde os bebês e as crianças possam ser socialmente assistidos e cuidados. É um absurdo o Estado Capitalista Burguês deixar exclusivamente nas costas das mulheres a responsabilidade social-econômica por dar continuidade à espécie humana. Incrível como os políticos silenciam quanto a esse fato, inclusive, no Brasil, em que a gerente maior do Estado Burguês Brasileiro é uma mulher, Dilma Roussef.

À mulher, de um modo geral, “morais machistas” aparecem como sendo “essências”, ofuscando a liberdade da mulher em criar a singularidade de sua própria vida, conforme suas escolhas. À mulher, nascida economicamente no seio da classe trabalhadora, tanto pior. Não é apenas oprimida por uma moral machista que tenta impedir sua liberdade de construir a própria vida e de decidir sobre o próprio corpo. A mulher trabalhadora é, além de tudo, mais explorada pelos patrões do que os homens trabalhadores o são. Os patrões, usando da desculpa ideológica esfarrapada e antiga de que a mulher “produz menos, devido à menor força física”, aproveitam-se disso para extrair uma maior parcela de mais-valia da mulher trabalhadora. Lembrando que, no sentido marxista, “mais-valia é o tempo de trabalho não pago aos trabalhadores e às trabalhadoras”, justamente o tempo em que a mulher trabalhadora trabalha gratuitamente para gerar riquezas para os patrões, dando-lhes o chamado lucro. O que essa ideologia atrasada esconde é que hoje, com as diversas tecnologias, não faz diferença ter mais ou menos força física: a mulher consegue operar, com igual produtividade, qualquer trabalho que os homens executam. Por que a mulher trabalhadora não recebe salário igual por trabalho igual? Absurdos que o dia de luta internacional da mulher não pode deixar de denunciar.

Por fim, terminamos aqui por denunciar a pior das crueldades. Fruto dessa moral machista hipócrita e escravocrata que, imputando uma falsa “moral feminina” a “ser seguida como essência” pelas mulheres, mas que, no fundo, tira a liberdade de a mulher decidir sobre o próprio corpo, oprimindo-a em cadeias ideológicas insanas, dezenas e dezenas de mulheres são assassinadas por dia nesse planeta, quando se recusam a manter relações afetivo-sexuais com determinados machos estúpidos. Este é o lado mais dramático e atroz dessa moral que tenta impedir a mulher de decidir e escolher o que fazer com o próprio corpo.

E aqui, para subverter essa lógica escravocrata e determinista, retomamos a radicalidade do princípio socialista livre de Simone Beauvoir: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. E que cada mulher tenha essa coragem de ser livre, que cada mulher rompa com essa ideologia do “feminino” que se quer a-histórico e eterno. Não existe nada eterno e natural no que se refere ao lugar social das mulheres. A mulher é um ser social em construção e, em liberdade, escolhendo e decidindo sobre o próprio corpo, sem ceder nenhum milímetro às ideologias machistas-capitalistas-escravocratas que tentam aprisioná-las e explorá-las, deve ser a única dona e toda soberana do seu destino. O socialismo livre deve ser o destino de mulheres e homens livres que, não aceitando a opressão e a exploração como práticas naturais e eternas, celebram tão somente a liberdade de ser o que se escolhe ser, sem seguir padrões questionáveis e suspeitos. Ser mulher livre é a possibilidade máxima a ser construída e vivida por todas as mulheres e por todos os homens que respiram a liberdade, sem jamais ceder a quaisquer práticas que cheirem opressão e exploração. O lugar da mulher livre é o mesmo lugar do homem livre: é um lugar socialista livre.”

Por: Gílber Martins Duarte – Socialista Livre/Frente Resistência – Conselheiro do Sindute-MG e diretor da subsede do Sindute em Uberlândia – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais – Doutor em Análise do Discurso/UFU – EDITOR DO BLOG www.socialistalivre.wordpress.com

Blogs da Frente Resistência: www.frenteresistencia.blogspot.com.br,   www.coletivolenin.blogspot.com, www.espacomarxista.blogspot.com, www.tendenciarevolucionaria.blogspot.com, www.tmarxistaleninista.blogspot.com.br , www.socialistalivre.wordpress.com

Socialistas Livres II

Anúncios

Sobre socialistalivre

Esse Blog está a serviço da Luta pelo Socialismo. Defendemos a plena liberdade do ser humano, mas somos radicalmente contra a liberdade de explorar, como a burguesia faz, e contra a liberdade de oprimir como os machistas fazem, os racistas fazem, os homofóbicos fazem, os praticantes de bullying fazem, os preconceituosos fazem, os possessivos fazem e os autoritários de plantão fazem. Assim, defendemos que cada corpo-consciência deve ter liberdade de ser o que ESCOLHE SER, desde que esta liberdade não oprima e explore os outros! Defendemos a plena liberdade de postura crítica e a plena democracia operária, todos devem ter o direito de expressar o que pensam! Defendemos a Revolução Socialista e a necessidade de libertação da classe trabalhadora do jugo do capitalismo. No entanto,somos contra comandos de hierarquias políticas ou de figuras públicas mais poderosas no seio dos lutadores que travam a batalha pelo socialismo. Defendemos que cada militante deve ousar pensar por si mesmo, cada militante deve ter o direito de concordar, mas também de discordar daquilo que julga equivocado, por isso nos definimos como Socialistas Livres e esse Blog está a serviço dos que desejam militar de acordo com essa concepção. Convidamos a todos a conhecerem nosso jeito diferente de entender e de praticar a política socialista, com liberdade, democracia operária, direito de crítica e respeito ao diferente. Saudações Socialistas Livres.
Galeria | Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , . Guardar link permanente.

5 respostas para “Não nasci mulher, tornei-me mulher”, Simone Beauvoir!

  1. Coxinha disse:

    Orientação que dei ao meu filho, e que os professores do cursinho tb deram, nas provas do Enem, não disserte sobre o que vc pensa, escreva o quê eles querem ler!
    Mulher que se vitimizar tira dez na redação.
    É isso que a vermelhada quer ler: que as mulheres são coitadinhas, sofredoras e vítimas.
    Nem tente falar sobre as primeiras medidas a serem tomadas para evitar sofrer violência, quais sejam: autoestima elevada, amor próprio, inteligência, percepção e outros meios mais de não se aproximarem de homens trastes, inúteis, imbecis, trogloditas e violentos.
    Nem tente escrever na redação que mulher que se valoriza só se aproxima e só atrai homens que as valorizam e homens que valorizam a mulher nem pensam (até porque ELA não permite) em sequer levantar a mão para ela, quanto mais agredi-la.

  2. Coxinha disse:

    A FRAUDE do ENEM com a doutrinação da mentira da ideologia de gênero.
    Esse é só um dos casos que ocorreram na prova de ontem.
    Essa gente é dúbia e fraudulenta! Afirmam que: “mulher não nasce mulher, torna-se mulher” (Frase tirada do contexto); mas o homossexual nasce homossexual. Entenderam?Quanta contradição!
    Usaram uma frase de Simone Beauvoir totalmente fora do contexto para proliferar a ideologia de gênero.
    Ela lutava pela IGUALDADE SOCIAL entre homens e mulheres, não por uma IGUALDADE BIOLÓGICA de gênero, sendo que essa última é impossível.
    As opções de respostas também não ficam atrás na manipulação.
    Não aceitem essa manipulação, mentira e enganação!
    ‪#‎NãoAMentiraDaIdeologiaDeGênero‬.

  3. Coxinha disse:

    Essa foi uma das mais descaradas do ENEM MARXISTA. BANDO DE CORRUPTO COMUNISTA.
    Para justificar o aumento dos analfabetos funcionais, a falta de vontade e de competência para investir na educação, os irresponsáveis do governo dizem que se você escrever errado nas redes sociais, “não significa que você esteja escrevendo errado”, pois você pode escrever errado, fora de coesão e sem respeitar as regras da língua portuguesa; porque isso não significa nada, faz parte da nova tecnologia!
    O receptor é quem tem a obrigação de se adaptar à nova forma tecnológica (errada) de escrever para poder compreender o que o outro quer dizer, pois o analfabeto em questão, não é quem escreve a nossa língua portuguesa errada, mas quem não consegue entender o que o remetente está tentando expressar, já que ele “não precisa saber falar ou escrever o português que os seus avós praticavam”.
    O problema não é “falarmos ou escrevermos da forma dos nossos avós”; o fato é que é imprescindível sabermos nos comunicar corretamente, utilizando a nossa língua portuguesa, que é o nosso idioma oficial.
    Não sou obrigada a aprender a linguagem tecnológica para me comunicar, o outro é quem tem que aprender o português para se comunicar adequadamente com a sociedade.
    ‪#‎GovernoManipulador‬
    ‪#‎IncentivandoOAnalfabetismoFuncional‬

    • Paulo Ricardo disse:

      Muito bom os questionamentos sobre a questão do português. Observa-se que essa língua no Brasil sofreu suas variações desde quando foi imposta pelos imperialistas colonizadores. Hoje quando falo com um português que visita o Brasil, me parece que estamos muito distantes da língua portuguesa, não mantivemos nem a essência da língua. Ao que parece há ainda ‘um outro em nós’ que Miguel Arroyo nos diz, mas a figura do português já é menos presente em nossa fala. Ter que aprender o português
      para se comunicar adequadamente com a sociedade fica meio metafórico, por não sermos portugueses e mesmo quando dizemos ‘aprender português’ ocorre uma dubiedade: de que português estamos dizendo? O falado no Brasil ou o falado em Portugal? Vejo-os tão diferente. São dúvidas de leigo apenas e não afirmações.
      Paulo Ricardo

  4. Coxinha disse:

    Dizeres de Simone de Beauvoir:
    Sobre mulheres casadas, no livro O Segundo Sexo:
    – “A esposa se alimenta dele como um parasita; mas um parasita não é um mestre triunfante”.
    No mesmo diálogo, ela é mais clara:
    “- Em minha opinião, enquanto a família e o mito da família e o mito da maternidade e o instinto maternal NÃO FOREM DESTRUÍDOS, as mulheres continuarão a ser oprimidas”.
    E mais:
    – “As glândulas mamárias que se desenvolvem na maternidade não têm papel na economia individual da mulher: elas podem SER REMOVIDAS a qualquer momento em sua vida”.
    Enfim, gente, é esse tipo de “grande mulher” que o PT está tentando fazer os jovens engolir, seja nas escolas ou nos exames do ENEM.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s