De oprimido na raça, a opressor nas relações trabalhistas de produção: um exemplo curioso!

Presenciei nesse dia 22/01/2015 uma cena cotidiana dramática nas relações trabalhistas de produção. Vi um chefe de uma empresa terceirizada, prestadora de serviços na Universidade Federal de Uberlândia, contratada para fazer reparos de danos elétricos, exercitando todo seu poder de mando sobre os trabalhadores a ele subalternos, dentro da hierarquia estabelecida nas relações trabalhistas de produção, na escala: patrão, chefe, trabalhadores.

Tudo ocorreu quando eu e meu amigo professor universitário estávamos escrevendo um artigo acadêmico na sala dele, lá na UFU. De repente, eis que se aproximam seis trabalhadores para fazer um reparo elétrico no ventilador da sala universitária do meu amigo. Até aí uma cena normal. De cara, contudo, percebi que estavam todos uniformizados com um nome de uma empresa terceirizada, fruto das terceirizações da universidade pública que, a passos largos, desmontou o funcionalismo público federal do setor de obras universitárias. Ademais, em questão de segundos, o chefe da equipe, com uma prancheta em mãos, fez questão de se destacar dos demais trabalhadores, quando, em tom alto e em frases de efeito ríspido, começou demarcar que ali ele é quem ordenava, ele é quem mandava, ele é quem era o chefe.

Logo, logo, o chefe já entrou de sola para com um trabalhador negro, com aparência bem humilde, com traços risonhos, parecendo querer nos cumprimentar humanamente com o olhar, mas não ousando dizer uma palavra perante o tom imperativo de seu chefe “superior”. Disparou o chefe, ao trabalhador negro, após uma olhadela no teto da sala: “suba lá em cima do telhado e faça o que tem de ser feito, deve estar acontecendo o mesmo problema, conforme já lhe mostrei antes. Faça isso agora”. O humilde trabalhador, olhando para altura da escalada que teria de fazer até o teto do pavilhão universitário, apenas consentiu de cabeça baixa, como se sentisse vergonha do tom tão ríspido, desnecessário, e, sobretudo, nada cordial do seu chefe. Ou seja, o chefe não iria escalar o prédio e dava ares de tamanha empáfia com tom tão alto. Por quê? No mesmo tom alto, o chefe do grupo, tentando demonstrar poder e superioridade em relação aqueles trabalhadores, demarcando que ali é ele quem mandava, retirou uma folha de sua prancheta e ordenou ao meu amigo professor: “assine aqui essa folha”… (e como que em um relâmpago, em minha interpretação, pareceu ter percebido que não falava mais com seus subalternos, e, sem nenhum convencimento, entoou no fim da proposição a ríspida expressão) “por gentileza”. Claro que não havia nenhum pedido de gentileza naquelas palavras. Pelo tom e expressão facial, havia um misto de raiva em ter de pedir “gentileza” a um professor universitário, principalmente quando se colocava acima dos seus trabalhadores comandados com tamanha supremacia. Por fim, com apenas um olhar, depois de assinada a folha, saiu sem falar palavras da sala, arrastando atrás de si o grupo de trabalhadores que aos seus pés, por necessidade de se manter no emprego, aguardavam por mais alguma ordem arrogante, em tom de demarcação desnecessária de poder. Sabem quando a altura e o tom da voz dizem mais do que mil palavras? Pois foi isso que mais saltou aos olhos de todos.

Um fato curioso: no crachá desse chefe, reparei que estava escrito “funcionário em treinamento”. Outro detalhe curioso, esse possível candidato a chefe, que deve estar sob avaliação na empresa, era “negro” e, por contradição, seu tom de maior rispidez e de maior demonstração de poder foi dirigido justamente ao trabalhador que, como ele, também era negro, justamente o trabalhador risonho e com tom de humildade no rosto, que descrevi acima. Aos trabalhadores brancos, o chefe negro não disse uma palavra. Por que, fico pensando aqui? Nada é por acaso nas relações sociais. Enfim, isso tudo fez essa cena de relações trabalhistas parecer ainda mais chocante. Por quê? Porque o que se viu foi um ser social oprimido, vítima de racismo nessa sociedade capitalista opressora, disputando um cargo de chefia em uma empresa capitalista terceirizada, submetido ao patrão dessa empresa, porém, para tal, achando-se na necessidade de comportar-se como mais um opressor, reproduzindo práticas como demarcação de poder e demarcação de intolerância para com seus subalternos, principalmente para com um trabalhador que, como ele, era negro: “faça, cumpra, obedeça, me escute, eu sei, agora estou no comando, tudo em nome da eficiência da empresa e do lucro do patrão”. É isso que saltou aos olhos. Que triste! Resumindo, um chefe negro oprimindo um trabalhador negro, em benefício do capitalismo.

Como disse Louis Althusser, em seu livro “Sobre a reprodução”: na reprodução das relações de produção capitalistas, muitos fatores ideológicos corroboram, sendo que o lugar do patrão, o lugar dos chefes e o lugar dos trabalhadores fazem tais relações de produção, baseadas na exploração e na opressão, parecerem naturais e eternas.

Por: Gílber Martins Duarte – Militante SOCIALISTA LIVRE – Sind-UTE/Uberlândia/MG – Doutor em Análise do Discurso/UFU – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais – Membro MEOB – CSP-CONLUTAS – EDITOR DO BLOG http://www.socialistalivre.wordpress.com.

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8 respostas para De oprimido na raça, a opressor nas relações trabalhistas de produção: um exemplo curioso!

  1. Peroni disse:

    tem uns seres que conseguem passar pra faculdade pública e se tornam uns lixos teleguiados do estado iguais ao Gílber.

    • Peroni disse:

      O estado é incompetente e/ou corrupto.

      • assalariado. disse:

        Peroni , vc quis dizer que o Estado capitalista, burgues é incompetente, né mesmo?

      • Peroni disse:

        Marx e seus seguidores nunca demonstraram qualquer consciência em relação à vital importância do problema da alocação de recursos escassos. Sua visão do comunismo é que todos os problemas econômicos desse tipo são triviais, e não requerem nem empreendedorismo, nem um sistema de preços, e nem um genuíno cálculo econômico — todos os problemas podem ser rapidamente solucionados pela mera contabilidade ou por simples registros cadastrais. A clássica insensatez em relação a esta questão foi explicitada por Lênin, que acuradamente expressou a visão de Marx ao declarar que as funções de empreendedorismo e alocação de recursos “já foram simplificadas ao máximo pelo capitalismo, que as reduziu às extraordinariamente simples operações de fiscalização, inscrição e emissão de recibos, algo que qualquer pessoa que saiba ler, escrever e fazer as quatro operações de aritmética pode fazer.”

        Ludwig von Mises, com muita ironia, comentou que os conhecimentos econômicos dos marxistas e dos outros socialistas “não eram maiores do que os de um garoto de recados cuja única ideia em relação ao trabalho de um empreendedor é que ele preenche pedaços de papel com letras e números”.

      • Loriemarie disse:

        Todo estado totalitário é incompetente.
        Dizem os marxistas, essa minoria será composta de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário do topo de sua autoridade estatal; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana … Os termos “socialismo científico” e “socialista científico”, os quais encontramos incessantemente nas obras e nos discursos dos marxistas, são suficientes para comprovar que o chamado ‘estado popular’ será nada mais do que um despotismo sobre as massas, exercido por um nova e relativamente pequena aristocracia formada por falsos “cientistas”. Eles [os marxistas] alegam que somente uma ditadura — comandada por eles próprios, é claro — pode trazer liberdade ao povo; nós respondemos que uma ditadura não tem outro objetivo senão sua própria perpetuação, e que ela não pode gerar outra coisa senão a escravidão do povo submetido a ela. A liberdade pode ser criada apenas pela liberdade.

  2. Loriemarie disse:

    De fato, somente um crente na irracional magia negra da “dialética” pode acreditar no contrário, ou seja, que um estado totalitário pode inevitavelmente e de maneira virtualmente instantânea se transformar em seu oposto, e que, portanto, a maneira de se livrar do estado é se esforçar ao máximo para maximizar seu poder.
    Mas o problema da dialética não é o único — na verdade, não é nem o principal — problema do comunismo marxista. O marxismo comunga com os anarco-comunistas um grave problema quanto à etapa superior do comunismo puro (supondo por um momento que tal etapa possa ser alcançada). O ponto crucial é que, tanto para estes anarquistas quanto para os marxistas, o comunismo ideal é um mundo sem propriedade privada, em que todas as propriedades e recursos serão controlados coletivamente. Com efeito, a principal reclamação dos anarco-comunistas em relação ao estado é que ele é supostamente o principal garantidor da propriedade privada, e que, portanto, para abolir a propriedade privada é necessário abolir o estado. A verdade, obviamente, é exatamente oposta: o estado, ao longo da história, sempre foi o principal despojador e espoliador da propriedade privada. Com a propriedade privada misteriosamente abolida, a eliminação do estado sob o comunismo (tanto da variante marxista quanto da variante anarquista) seria necessariamente uma mera camuflagem para um novo estado que surgiria para controlar e tomar decisões em relação aos recursos geridos coletivamente — exceto pelo fato de que o estado não mais seria assim chamado; ele seria renomeado para algo como “agência estatística popular”, mas continuaria armado precisamente com os mesmos poderes. Será de muito pouco consolo para as futuras vítimas, encarceradas ou assassinadas por cometerem “atos capitalistas entre adultos em comum acordo”, que seus opressores não mais sejam o ‘estado’ mas sim uma ‘agência estatística popular’. O estado, sob qualquer que seja seu novo nome, continuará com o mesmo aroma urticante.
    Ademais, como já indicado, na etapa “além do comunismo”, a etapa de coletivização universal, de inação e de não utilização de recursos, a morte de toda a raça humana seria a inevitável consequência.

  3. Loriemarie disse:

    Este trecho é, em minha opinião, genial:

    “A absoluta miséria e o total horror da etapa suprema (e, mais ainda, da etapa que possivelmente viria depois) do comunismo deveriam estar agora já totalmente aparentes. A erradicação da divisão do trabalho iria rapidamente gerar a fome e a miséria econômica para todos. A abolição de todas as estruturas de interrelações humanas traria enormes privações sociais e espirituais para todos os indivíduos. Até mesmo o suposto desenvolvimento “artístico” intelectual e criativo das faculdades de todos os homens seria totalmente afetado pela proibição a todo e qualquer tipo de especialização. Como pode o genuíno aperfeiçoamento intelectual ocorrer sem nenhum esforço concentrado? Em suma, o pavoroso sofrimento econômico da humanidade sob o comunismo seria comparável apenas à sua privação intelectual e espiritual.”

    Este trecho não apenas fala do comunismo, mas também todos os outros projetos de administração social baseados no planejamento central. Vide o The Zeitgeist Movement.

    Gostaria de entender os motivos de tamanho ódio pela divisão de trabalho. Há alguns dias, assistindo ao discurso de um pensador esquerdista, este disse as seguintes palavras:

    “Quantos artistas, escritores, filósofos e sociólogos não perdemos à sociedade por que estes precisam ser submetidos e escravizados por um modelo produtivo?!”

    Tentando elaborar uma forma plausível de refutá-lo, pensei na seguinte frase:

    “Quantas sociedades nós teríamos de perder para que estas sejam escravas das necessidades de artistas, escritores, filósofos e sociólogos que são incapazes de servir a outros com seu conhecimento?”

    Tentei ensiná-lo de que aquilo que ele valoriza não necessariamente é aquilo que a sociedade DEVE valorizar. Se o trabalho dele como artista não é valorizado pela sociedade, não há motivo para que este revolte-se contra esta por não apreciar a beleza que apenas existe nos olhos do autor.

    (Outro argumento falho que ele cometeu é o de acreditar que o diploma em artes transforma um indivíduo em um artista e o impede completamente de ser um filósofo ou engenheiro. Mas isto não é argumentativamente interessante.)

    Enfim, apenas estava tentando limpar minha mente.

  4. Sergio Carneiro disse:

    Quem disse que dentro de uma sociedade socialista não existe divisão de tarefas ou hierarquia funcional? Mesmo que exista um conselho de trabalhadores para decidir sobre os rumos do socialismo, este órgão – o conselho – não teria a função de administrar ou de executar as decisões? Isso não seria um divisão de tarefas fundamentadas em uma hierarquia instituída e aceita pelos próprios trabalhadores?

    Se o chefe imediato, citado no texto, foi racista, arrogante e opressivo, não vejo como uma consequência do capitalismo, pois pessoas com defeito de caráter podem existir em qualquer sistema. Talvez se o chefe do chefe imediato soubesse que ele assim procede, provavelmente seria repreendido.

    Pena que a narrativa terminou sem sabermos se o autor do texto informou a atitude do chefe imediato ao seu superior, ou talvez o autor do texto quis somente relacionar que o racismo, a arrogância e a opressão de uma pessoa esteja ligado única e exclusivamente ao capitalismo e que isso não ocorreria em uma sociedade socialista.

    Abraços cordiais.

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