Minas Gerais, a melhor educação fundamental do país? Fala sério, Aécio Neves!

Chega doer-me o ouvido quando ouço Aécio Neves, em plena campanha política, dizer na televisão, que Minas Gerais tem a melhor educação fundamental do país. Por isso, volto ao assunto. Ele tem usado dos números das avaliações sistêmicas externas para fazer essa propaganda em âmbito nacional, passando-se como o futuro “bom mocinho” da escola pública brasileira, mas os bastidores dessa propaganda falaciosa, nós, professores da rede estadual de Minas Gerais, conhecemos muito bem e não nos permitimos nos enganar. E mais, não seria ético permitir que outros se enganem por essa historietazinha tão mal contada pelo PSDBista.

Não queremos aqui questionar a pontuação das escolas de Minas Gerais que de fato, pelas aparências, está acima da média nacional, contudo, queremos questionar, sim, a forma como foram fabricados esses números para se chegar às referidas estatísticas que supostamente colocam Minas Gerais como “a melhor educação fundamental do país”.

Nós, professores da rede estadual de Minas Gerais, sabemos quantas pressões foram usadas no interior das escolas, sobre professores, sobre especialistas, sobre diretores, apenas para que os alunos atingissem melhores pontuações nas provas externas (PROEB, SIMAVE, PROVA BRASIL), provas, diga-se de passagem, que avaliam tão somente questões de múltiplas escolhas em Português e Matemática. Ora, o excesso de pressão, tais como: i- chantagens com avaliação de desempenho dos trabalhadores em educação que se não dedicassem a melhorar as médias dos alunos; ii- promessas de décimo quarto salário integral para escolas que melhorassem o índice de respostas corretas dos alunos, décimo quarto salário, este, entretanto, que também nunca foi pago integralmente, muito menos foi pago em todos os anos, exceto em ano de campanha eleitoral; iii- excesso de relatórios forçando professores a fazer com que os alunos se adequassem aos conteúdos das provas externas; iv- enfim, esse conjunto de fatores possibilitou não que uma aprendizagem real acontecesse, mas, sobretudo, que reducionismos e até fraudes educacionais fossem possibilitadas.

Onde esteve o reducionismo? Ficar treinando o aluno apenas para marcar (x) em questões de múltipla escolha nos conteúdos de Português e Matemática, sem critério crítico, apenas para demonstrar melhoria nas estatísticas do Estado. Onde esteve a possibilidade de fraude educacional? É mais difícil provar as fraudes, porque elas foram indiretas e discretas, e também não aconteceram em todas as escolas, porque, em muitas escolas, os trabalhadores em educação mais críticos politicamente resistiram em maquiar a realidade educacional de Minas Gerais. De qualquer modo, é possível ler o germe das fraudes através de alguns discursos que circularam amplamente no interior das escolas estaduais de Minas Gerais. A discursividade era mais ou menos a seguinte: “é preciso facilitar as repostas para os alunos nessas provas externas, não é isso que o governo quer? Fazendo isso, ‘nossa escola’ atingirá as metas estipuladas pela Superintendência e pela Secretaria da Educação e pelo menos teremos menos cobrança, porque está um inferno esse excesso de pressão para ganhar esse salário miserável de R$1.386,00. Temos que ser ‘espertos’! Também, sem atingir as metas do governo, o décimo quarto não será pago integralmente e ‘nossa escola’ vai ser pressionada, entrará em intervenção pedagógica, haverá um monte de inspetores e analistas nos fiscalizando e muita dor de cabeça”. Enfim, quem nunca ouviu essa discursividade fraudulenta circulando no interior das escolas de Minas Gerais que me atirem a primeira pedra!

Resultado. Minas Gerais conseguiu, com excesso de pressão ao longo do “chicote de gestão” dos tucanos, gastando muito pouco com os trabalhadores em educação, aumentar os números das respostas corretas nos provões da vida. Esse fato também já ocorreu nos Estados Unidos, afinal, esse modelo do ‘chicote’ para educação não é uma ideia fantástica criada pelos tucanos mineiros, é cópia ipsis litteris da decadente educação norte-americana, que agora já começa a rever suas políticas educacionais. Lá, afora as fraudes que correram soltas, os melhores estudantes se tornaram ótimos “treineiros” para provas externas, mas péssimos avaliadores críticos do mundo. O Sind-UTE/MG já publicou artigo de pesquisadora norte-americana demonstrando como o reducionismo educacional e as fraudes geraram um fracasso crítico nos Estados Unidos, educação, esta, baseada nesse modelo de apenas treinar alunos para marcar (x).

Outro absurdo que ocorreu na educação fundamental de Minas Gerais. O Governo Aécio Neves/Anastasia criou o aluno-ser humano de segunda categoria, ou seja, os alunos do PAV (Projeto Acelerar para Vencer) e pasmem!, as notas desses alunos, que eram alunos repetentes, com defasagem na idade série, com sérias dificuldades de aprendizagem, ah, A NOTA DESSES ALUNOS NÃO CONSTARAM DAS ESTATÍSTICAS DAS PROVAS EXTERNAS: o governo mineiro não os considerou alunos regulares da educação básica. Ou seja, esses alunos, e foram muitos, com muitas salas de PAV espalhadas nas escolas do Estado, foram impossibilitados de receber a mesma educação dos outros, porque fizeram o ensino fundamental com apenas dois anos, sem reprovação alguma e, obviamente, para ajudar a fabricar a propaganda enganosa do governo mineiro, suas notas não entraram no ranking das estatísticas que demonstram essa suposta melhoria de média da educação mineira no ranking nacional. Em outras palavras, a propaganda de Aécio Neves de que Minas Gerais possui a melhor educação do país, com base nos números que têm sido expostos na televisão e em sua propaganda eleitoral falaciosa, é uma fabricação tortuosa. Por que as notas dos alunos do PAV não entraram nas estatísticas, Senhor Aécio Neves? Isso o senhor não diz em sua propaganda política. Minas Gerais é a melhor educação básica do país? Sinceramente, candidato, se Minas Gerais tem a melhor educação do país, tenho medo só de imaginar como anda a pior.

E espero que essa educação “modelo” que o senhor tanto divulga nacionalmente fique somente no passado de uma memória não grata dos educadores mineiros. Os mineiros já disseram NÃO a essa sua educação “modelo”, derrotando seu sucessor já no primeiro turno em 2014. E que o Brasil não compre essa sua lebre recheada de “gato”.

Por: Gílber Martins Duarte – Socialista Livre – Conselheiro do Sind-UTE / MG e diretor da subsede do Sind-UTE em Uberlândia – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais – Doutor em Análise do Discurso/UFU – Membro da CSP-CONLUTAS.

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