Uma outra educação para Minas é possível? Ou uma outra educação para o país é possível?

Participamos da VII Conferência Estadual de Educação, organizada pelo Sind-UTE/MG, realizada em Betim, nos dias 30 e 31 de agosto, cujo tema era: UMA OUTRA EDUCAÇÃO PARA MINAS É POSSÍVEL. A temática, sendo bastante ampla, coube várias abordagens, tanto que houve diversas mesas discutindo propostas educacionais para Minas perante um público de 1.600 trabalhadores em educação.

Aqui, entretanto, vamos pontuar uma abordagem que não vimos discutida nessa VI Conferência. A primeira grande pergunta que fazemos é: que educação outra é essa que seria possível em Minas Gerais? Ser outra não significa ser melhor. Ser outra não significa ser superior a que existe. Portanto, o desafio é: como ir além da concepção educacional atual e fazer melhor?

Sempre que um governante assume o poder, há uma discursividade de inovação da educação, mas, na maior parte do tempo, patinamos no mesmo lugar, seja nos municípios, seja nas redes estaduais, seja no âmbito federal. Outra pergunta então é: basta trocar o governante para mudar a educação para melhor? A resposta é NÃO. Claro que os governantes podem ser motivadores, se, por exemplo, pagam um bom salário para o educador e se constroem um Plano de Carreira que motive o educador a investir na própria formação permanente. Mas, apesar dessas medidas serem fundamentais, isso ainda é insuficiente para construir uma educação além da que é conhecida.

Outro detalhe: nenhum estado brasileiro é uma ilha, logo, é equivocado falar em melhorar a educação apenas em Minas Gerais. Podemos, sim, superar mazelas estruturais em um estado, como, por exemplo, em Minas Gerais, onde o governo do PSDB destruiu o Plano de Carreira e o Piso Salarial dos educadores, assim, é bastante compreensível desejar-se um governante que resgate esses direitos trabalhistas mínimos em Minas. Mas afora isso, a educação que queremos e que podemos construir não pode ser tratada como uma ilha restrita a Minas Gerais. Não é só em Minas Gerais que a educação ainda é muito atrasada, trata-se de um problema nacional. Por conseguinte, é preciso uma política nacional de valorização da educação e dos educadores, com um Piso Salarial Nacional muito superior ao que existe e isso o Governo Federal também ainda está nos devendo, não é só o Governo de Minas, além do quê, é preciso ousar nas concepções tradicionais de educação para que de fato possamos avançar.

Dadas as melhorias das condições de trabalho adequadas aos educadores, o que infelizmente ainda não é realidade nem em Minas Gerais, nem no Brasil, ainda fica a intrigante questão: qual outra educação precisamos construir, seja em Minas Gerais, seja no Brasil?

Primeiramente é preciso lembrar que nas escolas públicas estão matriculados os filhos da classe trabalhadora. Também é preciso ressaltar que os filhos da classe trabalhadora, na lógica do capitalismo, bastam apenas ser formados como corpos dóceis, para que, quando adultos, reproduzam as relações de produção exploradoras-opressoras do sistema capitalista como algo natural, eterno, necessário, inevitável, inquestionável.

Isso nos coloca a seguinte disjuntiva: qual educação devemos oferecer para os filhos da classe trabalhadora? A educação-adestramento, oferecendo-lhes conhecimentos supostamente inquestionáveis, oferecendo-lhes possibilidades de raciocinar sobre cálculos matemáticos e interpretações linguísticas mínimas (como acontece nas atuais provas do PROEB), ou mesmo oferecendo-impondo-lhes métodos de disciplinarização doutrinária? Ou a educação crítica permanente, condição imprescindível para a constituição de sujeitos capazes de compreender-produzir-modificar as diversas práticas econômico-jurídico-ideológico-científico-histórico-político-culturais que os interpelam?

Ficamos com a educação crítica permanente interpeladora-constitutiva de sujeitos capazes de compreender-produzir-criticar-transformar práticas. Essa educação não tem idade marcada para começar e terminar, como indica o atual fator idade-série, afinal, aprender é um processo permanente na vida do sujeito, logo, a escola deve estar sempre preparada e aberta com profissionais das mais diversas áreas acadêmicas e técnicas para oferecer os mais diversos tipos de cursos a todos da comunidade, conforme as demandas; essa educação não se mede em provões reducionistas de Português e Matemática, como acontece em Minas Gerais e no Brasil; essa educação não pula etapas com aprovações automáticas apenas para não gastar com os estudantes com dificuldades de engajamento em determinada faixa etária, em dado conteúdo; essa educação não se restringe ao currículo tradicional atual, pois várias PRÁTICAS ECONÔMICAS, CULTURAIS, CIENTÍFICAS, SOCIAIS, HISTÓRICAS, POLÍTICAS, JURÍDICAS, DISCURSIVAS, TÉCNICAS poderiam ser objetos de estudo permanente no âmbito da escola pública (música, arte, literatura, dança, culinária, primeiros socorros, autoestima, autoescola, futebol, voleibol, designer, domação de animais, carpintaria, sociologia, história, português, geometria, e um longo etc., são exemplos da diversidade de cursos que poderiam ser oferecidos permanentemente, elevando o potencial técnico, prático e crítico da população); essa educação também não tem idade para começar e nem idade para terminar, pois a educação verdadeira se dá quando há o desejo do estudante de aprender determinada técnica ou determinada ciência ou determinada prática social, logo, em qualquer idade é tempo de se aprender; essa educação implica abrir escolas e universidades de um modo permanente para construção do saber, com aulas durante a semana, com projetos-aulas nos finais de semana, com palestras sobre diversas temáticas oferecidas permanentemente à comunidade; essa educação descortinaria permanentemente o mistério das diversas práticas econômico-jurídico-ideológico-científico-histórico-político-culturais, desnaturalizando-as, deseternizando-as, mostrando que todas as práticas são construídas, logo, poderiam ser transformadas se não atendem de forma justa e equitativa as necessidades da coletividade.

Portanto, outra educação CUSTA CARO, pois implica contratação de diversos profissionais, bem preparados e bem formados, para permanentemente educarem a comunidade de forma crítica e engajada na construção de práticas sociais cada vez mais superiores e cada vez mais tecnicamente corretas. Mas, de antemão, dizemos, no capitalismo teremos sérias oposições a essa educação crítica, permanente, engajada, libertadora, prática, pois o sistema quer pessoas submissas, acríticas e incapazes de refletir permanentemente sobre a própria vida e muito menos sobre a vida social. Educar permanentemente é perigoso, principalmente quando se quer corpos dóceis, acríticos e incapazes.

Por: Gílber Martins Duarte – Militante Socialista Livre do CSL/CAEP – Sind-UTE/Uberlândia/MG – Doutor em Análise do Discurso/UFU – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais – Membro MEOB – CSP-CONLUTAS.

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