MOMENTO LITERÁRIO: Resoluções de Alberto

Hoje sei quem sou, tenho mais consciência. Espero com isso cometer menos erros, conseguir relacionar-me melhor com as pessoas. É estranho refletir sobre isso tudo… Ao mesmo tempo em que penso dessa forma, vejo que eu não era tão nervoso como diziam, mas tenho noção de como agia: apesar de não procurar briga com ninguém, se no ambiente de trabalho alguém não entendia o óbvio, eu me enervava. Quando um colega de trabalho me roubava um conceito para um projeto, eu ia até ele, apontava-lhe o dedo no rosto e dizia: “Seu bandido, você terá coragem de dizer na minha cara que a ideia era sua?” E a pessoa que a roubava saía como vítima e todos na empresa me viam como um monstro. Agora sei que não se deve agir assim, que a regra para se relacionar em qualquer meio é ser um pouco sonso, um tanto dissimulado. Por outro lado, penso que isto é fazer o jogo dos medíocres, não sei…

Com as mulheres foi a mesma coisa, elas gostam é de quem não as ama, gostam de ser maltratadas. Quando eu estava interessado em uma mulher, ela logo sabia desde o início, pois eu não escondia meus sentimentos. Hoje vejo que isso quebra o encanto. Quando queria só me divertir, eu deixava isto claro para não iludi-las, aí elas me deixavam. Eu não consigo entendê-las direito, é muito difícil lidar com as mulheres… Tento ser objetivo e ver que não era somente eu que errava, que tive um pouco de azar em meus relacionamentos. Hoje, não mais revelo de imediato o que sinto, estou tentando acertar enquanto ainda sou jovem.

– Bem, Alberto, – disse o psiquiatra reclinando-se na poltrona. – que bom que você fez todas estas reflexões. Desculpe-me perguntar novamente. Quantos anos você tem?

– Tenho 29 anos.

– Vou anotar aqui… – e continuou: – Alberto, como era o seu lar quando você era criança? Você teve algum problema mais grave com seus pais?

– Não, realmente não tive. Minha casa era tranquila, meu pai tinha um bom emprego. A única coisa que ocorreu foi que minha mãe fugiu com outro homem e nunca mais a vimos.

– Mas isso é um problema grave, não é?

– Claro, quando eu disse que não tive problemas, é que, enquanto morou conosco, ela me tratava muito bem.

– Entendo… e como ficou seu pai?

– Ele ficou arrasado, pois realmente a amava muito, nunca mais se casou.

– Mas e você? Não guardou nenhum rancor, nenhu­ma raiva em relação à sua mãe?

– Doutor, para falar a verdade, não. – disse ele incli­nando o corpo para frente. – Mas durante muito tempo eu me senti culpado por tudo aquilo.

– Como assim, culpado?

– Não sei, quando eu era criança pensava que ela ti­nha ido embora por minha causa, por alguma coisa que eu tivesse feito.

– Ah, sei… Isso não é incomum, algumas crianças em situação parecida também pensam desta forma, mas é muito importante que você o tenha dito. – e mudando de tom, o psiquiatra lhe falou: – Alberto, há muita coisa que nós temos de trabalhar ainda, mas nosso tempo acabou. Eu gostaria de discutir esse assunto na semana que vem com você, tudo bem?

– Ok, doutor. – disse Alberto levantando-se e saindo.

Logo após, entra outro psiquiatra no consultório e lhe diz:

– Tudo bem, Marcelo? Eu vi o Alberto lá fora. Como anda o tratamento dele?

– Evoluindo aos poucos. Pelo menos ele é muito arti­culado.

– Ele se recusou a falar da infância?

– Não, hoje falou até muito.

– Que bom, hem? Assim você vai juntando as peças… E quem ele é dessa vez?

– Um jovem administrador estressado com proble­mas amorosos.

– Que coisa, velho como ele é… Lembra-se daquela vez em que ele era um cientista e sua esposa fugiu levando seus projetos?

– Lembro, claro. – disse Dr. Marcelo recolhendo suas coisas.

CONTO escrito por Ricardo da Mata – Escritor Literário – Socialista Livre

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Esse Blog está a serviço da Luta pelo Socialismo. Defendemos a plena liberdade do ser humano, mas somos radicalmente contra a liberdade de explorar, como a burguesia faz, e contra a liberdade de oprimir como os machistas fazem, os racistas fazem, os homofóbicos fazem, os praticantes de bullying fazem, os preconceituosos fazem, os possessivos fazem e os autoritários de plantão fazem. Assim, defendemos que cada corpo-consciência deve ter liberdade de ser o que ESCOLHE SER, desde que esta liberdade não oprima e explore os outros! Defendemos a plena liberdade de postura crítica e a plena democracia operária, todos devem ter o direito de expressar o que pensam! Defendemos a Revolução Socialista e a necessidade de libertação da classe trabalhadora do jugo do capitalismo. No entanto,somos contra comandos de hierarquias políticas ou de figuras públicas mais poderosas no seio dos lutadores que travam a batalha pelo socialismo. Defendemos que cada militante deve ousar pensar por si mesmo, cada militante deve ter o direito de concordar, mas também de discordar daquilo que julga equivocado, por isso nos definimos como Socialistas Livres e esse Blog está a serviço dos que desejam militar de acordo com essa concepção. Convidamos a todos a conhecerem nosso jeito diferente de entender e de praticar a política socialista, com liberdade, democracia operária, direito de crítica e respeito ao diferente. Saudações Socialistas Livres.
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