Reformar o capitalismo ou mudar o sistema?

Entendemos que sem investimento econômico na melhoria de vida da classe trabalhadora e sem capacitação qualificada não será possível que nossos jovens deixem de ser assassinados por esta política torpe de segurança. Sem uma política de saneamento e de saúde pública da qual as comunidades carentes estão sempre alijadas, não haverá saída para o caos social em que nos encontramos.

Pensar em políticas sociais assistencialistas, ao invés de erradicar a pobreza com mais empregos, através de um planejamento socialista da economia, é uma enganação. Em um mundo em colapso, a tendência é o desemprego e a miséria: os “bolsa família”, “aluguel social” apenas apresentaram até hoje uma política de cooptação dos votos dos mais pobres. Um projeto de mudança social ampla, com uma política que aponte novos rumos, sem fórmulas mágicas, é o que interessa realmente.

É preciso mudar a política econômica para garantir ao povo trabalhador suas necessidades mais prementes em todos os níveis. Tem prevalecido, infelizmente, a lógica de servir aos interesses dos grandes capitais externos, que implica: formação de mão de obra barata, exploração de recursos do país que poderiam ser voltados para os interesses da classe trabalhadora. Pensemos o quanto o capital já usurpou dos setores básicos da economia para cada vez mais concentrar rendas em seus cofres. Pensemos nas consequências práticas que todos os governos de até hoje (comprometidos com o capital) imputaram ao povo no campo e nas cidades. No campo apontamos o agronegócio invadindo terras de pequenos proprietários e terras indígenas. As mineradoras, por sua vez, tal como as madeireiras, completam a marcha insana com as invasões (matam quem não aceita entregar suas terras, ou quem denuncia suas práticas), além de desmatar e destruir o sistema ecológico (vida), com o único intuito da acumulação do capital.

Acompanhando esta marcha, o governo federal do PT apenas firma a administração do capital pela simples missão de se manter no poder, cooptando a organização sindical e popular, sobre a qual já tinha e continua tendo grande influência, dando sustentação a sua política de conciliação e cooptação de classe. Como pensar em uma política para a saúde, quando vemos os governos abandonando qualquer investimento em hospitais (exemplo mais drástico foi o fim do hospital dos servidores) e profissionais no Rio de Janeiro? Com isso força-se a ampliação do acesso das empresas de planos de saúde a seus funcionários (de que outra forma essas empresas conseguiriam enriquecer mais rapidamente?).

De outro lado, vemos o quanto a educação vem perdendo com essa mesma política. Degradaram o sistema educacional, desviando verbas para empresários do ramo gráfico, de alimentação, e de outras empresas que terceirizam serviços e fornecem uniformes e material escolar. Tudo em nome das crianças. Não podemos aceitar um país que não garanta o mínimo para seu povo trabalhador, enquanto garante todas as condições para que empresários e todo tipo de capacho se enriqueçam às custas do nosso trabalho.

Nessa marcha capitalista, passamos por um governo que continua a pagar juros de uma dívida externa que leva o país a chafurdar-se ainda mais nessa lama (do total da dívida externa brasileira, no fim de 2013, US$ 66,3 bilhões eram do governo, US$ 4,44 bilhões do BC, US$ 130 bilhões dos bancos e US$ 110 bilhões de outros atores do setor privado) e, diga-se de passagem, valores de financiamento feitos pelos militares e empresários nas décadas de 1960. Como sempre, o pagamento disso sai do povo em forma de impostos e taxas.

Por outro lado, os governos sob a desculpa de que é necessário investir na produção, elimina ou reduz taxas e impostos para os empresários, e mais uma vez os impostos do povo trabalhador aumenta de alguma forma. Se chegarmos ao fato do que significa a dívida interna, nessa lógica, o povo é espoliado e os empresários engordam seus lucros.

Pensamos que, de uma forma bastante contundente, o discurso usado em qualquer país do mundo aponta para os governos apostando nas mesmas saídas para a crise econômica: austeridade e carestia como solução. E as consequências disso nada mais são senão os enfrentamentos das forças de estado contra o povo. Ora se o povo trabalhador é inimigo do Estado, então a quem o Estado esta defendendo? Grosso modo, o Estado apenas defende a minoria da sociedade que concentra a renda dos países em suas mãos, a burguesia.

Ademais, para que possamos recuperar um pouco da nossa dignidade, resolvendo em parte os problemas gerados pela exploração e concentração de renda capitalistas, não podemos nos esquecer também do que significa a especulação imobiliária. Por que será que vemos os governos usando da força para “limpar” todas as áreas de ocupação? Certamente os interesses dos setores imobiliários capitalistas é garantir espaços para novas unidades, mas com certeza para serem construídos e vendidos apartamentos ou lojas comerciais a peso de ouro, unidades habitacionais a que quem precisa morar nunca terá acesso, da mesma forma que quem as constrói nunca terá o direito de moradia. O povo trabalhador terá de continuar morando em locais da periferia e insalubres, sem saneamento básico, sem urbanismo e sem acesso rápido ao trabalho.

Apontamos, aqui, o que vem sendo há décadas (ou mais) exigência dos trabalhadores aos governos: 1) Reforma agrária para que se acabem as chacinas contra os povos originários (pequenos agricultores e lideranças camponesas) por parte de grileiros, ruralistas, madeireiras e garimpeiros; 2) Fim da força policial contra os manifestantes e a população em geral (desmilitarização das forças auxiliares, como Polícia Militar e Corpo de Bombeiros), fim das forças municipais; 3) Abertura de CPI’s para investigar , punir e devolver aos cofres públicos todo o dinheiro desviado, com juros, correção (inclusive o que foi depositado em paraíso fiscais) em todos os governos; 4) Estatização de setores estratégicos da economia (por exemplo, Bancos, petróleo e gás; transportes ferroviários, marítimos e aéreos); 5) Investimento imediato em saúde, educação, transporte, esporte e lazer; 6) beneficiamento a população pobre, com uma política mais firme, para a erradicação total da miséria (habitação digna e combate a seca) e o analfabetismo; 7) Apoio total aos povos que lutam por suas liberdades.

Como promover mudanças significativas nesse sistema? As lutas travadas contra o capital nas ruas, no período de junho do ano passado, assumiram desdobramentos fundamentais. No Rio de Janeiro, por exemplo, com o início da greve dos professores, foi possível colocar em cheque o projeto de privatização implementado pelo governo. Esses exemplos de luta são o caminho para de fato mudarmos a vida dos trabalhadores e jovens desse país. Há que se transformar a lógica do sistema capitalista. Reformar esse sistema é uma ilusão e não promoverá mudanças na vida da classe trabalhadora

Por: Mauro Nunes – Coletivo Socialistas Livres (CSL) – CAEP/Centro de Atividades e Estudos Políticos.

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3 respostas para Reformar o capitalismo ou mudar o sistema?

  1. Lendo artigos como esse, vejo a importância de refutar essa tacanha intelectualidade brasileira, como um pessimista – ou diria realista – infelizmente não vejo solução, nem a longo prazo, para o problema do Intervencionismo. Como bem apontou Huerta de Soto, o Estado cria seus filhotes, que são agraciados com as tetas fartas do leviatã. Fora isso, controlando o poder de Polícia e emissão do Papelzinho-do-diabo, não nos resta muitas ferramentas de combate. O funcionalismo público se retroalimenta e tem uma classe parasitária assustadoramente poderosa. A luta entre Setor produtivo (privado, óbvio) e o improdutivo é inglória. E o pior, o empresariado, sabendo de sua fraqueza, se une aos parasitas para se manterem no páreo.

    Mas mesmo diante desse terreno hostil, quem sabe aos poucos consigamos derrubar alguns pilares do leviatã.

    É impossível ser otimista no Brasil. O problema é que nós vivemos em uma bolha onde nossos amigos são tão libertários quanto a gente, mas esse não é o mundo real. No mundo real, as pessoas são cada vez mais burras e idiotizadas.

    A recente onda de manifestações é uma imagem clara disso: alguns pequeninos grupos nossos com cartazes inteligentes e tentando mostrar que passe livre e intervenção estatal são descivilizatórios (para usar a linguagem do prof. Huerta) e a grande massa ignara defendendo tudo “gratuito” (educação, saúde, transporte, dança do ventre, sei lá mais o quê), e ao mesmo tempo falando mal da corrupção, como se serviços públicos e corrupção não estivessem intrinsecamente ligados.

    A idiotização é tamanha que tem gente que, ao mesmo tempo em que critica os gastos do governo em estádios, é contra a privatização dos mesmos.

    A inteligência, pelo visto, se tornou uma commodity rara hoje em dia.

    Entre o pessimismo da situação atual e o otimismo por vir, haverá necessariamente uma tragédia.

    O jejum talvez induza nós humanos a pensar no longo prazo.

  2. Professor Paulo Ricardo disse:

    Permita-me refutar o “empreendedorismo” inescrupuloso do senhor Gílber

    “1. na especialização da criatividade empreendedorial em campos cada vez mais específicos, com cada vez mais profundidade e detalhes;”

    Para tal, o senhor Gílber prega que a escassez desnecessária seja criada a atormentar os homens para que mais lucros sejam auferidos pelos prestadores de serviço. Diferentemente daquilo pregado pela escola austríaca, a escassez não é a situação natural do homem em um ambiente de completo ócio, mas sim a abundância. Ao empreendedor ofertar, por exemplo, comida cruelmente da eliminação de recursos naturais aos homens; o que ocorre é que a própria fome fora criada pois os homens serão expostos à obsolescência existencial de não ter comida.
    O mesmo vale para o vendedor de água de coco na praia, que explora os pobres que vão às praias ao ofertar-lhes água de coco, uma necessidade específica e profunda.
    Agradeço à juventude socialista do The Zeitgeist Movement por tamanha iluminação sobre como os próprios prestadores de serviço(Eliminadores da escassez de outros) criam escassez.

    2. no reconhecimento dos direitos de propriedade do empreendedor criativo, o que significa que ele tem o direito de manter para si os frutos de sua atividade criativa em cada uma destas áreas;

    Absurdo. Ele utilizou átomos retirados da natureza, o que antes pertenciam à toda sociedade. Tratou-se de um roubo. Todos os recursos possuem uma função social coletiva pois toda vez que são tomados da natureza, passam a não mais pertencer a todos, mas a apenas um. Logo, o próprio corpo do empreendedor é uma propriedade de todos e deve ser utilizado pelo bem comum de toda a comunidade.

    3. na troca livre e voluntária destes frutos gerados pela especialização de cada ser humano, uma troca que sempre será mutuamente benéfica para todos aqueles que participam do processo de mercado;

    Os austríacos são simplistas e incapazes de reconhecer as implicações sociais do comércio e do trabalho. O valor objetivo marxista estabelece que todo comércio gera exploração/roubo caso ambos os bens trocados não possuam valor intrínseco idêntico e valor de adição social(Não confundir com o valor subjetivo austríaco, que é conceito da burguesia) não nulo. O que significa que caso eu troque uma porta de 8 horas de valor intrínseco por uma fruta colhida em 2 horas, estou tendo minha fome explorada pelo maligno coletor e sou seu escravo. Uma brutalidade.

    4. no crescimento contínuo da população humana, o que torna possível “ocupar” e cultivar empreendedorialmente um crescente número de novas áreas de conhecimento criativo empreendedorial, o que enriquece a todos.

    Maior população significa maior potencial de exploração da mais-valia. Já fora explicado incontáveis vezes por aqueles que se opõem ao pensamento do Senhor Gílber que o fato de um homem trocar voluntariamente sua mão-de-obra por quaisquer bens é, na realidade, a venda da alma humana para o modo de produção burguês, a invasão do espírito, a morte da inocência e o próprio pecado original.
    É absurdo que mesmo após a cópia que eu o enviei de um livro do Milton Santos, o autor ainda resista com suas cismas reacionárias.

  3. Mauro Nunes, sua crítica tem vários problemas. O mais grave é o diagnóstico errado, o que significa que todo o “tratamento” recomendado está absolutamente equivocado. No fim, vai acabar matando os pacientes e boa parte dos vizinhos. Ofereço a seus leitores um artigo menos pretensioso mas que parte dos fundamentos teóricos das principais linhas de pensamento que dominam o debate desde o século XX.

    ESQUERDA x DIREITA: A TEORIA DAS GAVETAS OU COMO NÃO CHAMAR URUBU DE “MEU LÔRO”.
    http://questoesrelevantes.wordpress.com/2013/12/12/esquerda-x-direita-a-teoria-das-gavetas-ou-como-nao-chamar-urubu-de-meu-loro/

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