MORADIA POPULAR ou ÁREA VERDE: uma disjuntiva hipócrita!

Cerca de seis mil famílias que lutam por moradia na zona sul da cidade de São Paulo ficaram indignadas semana passada, com razão, diante da declaração pública do prefeito Fernando Haddad (PT), que disse que o terreno ocupado por estas famílias deveria ser destinado à construção de uma ÁREA VERDE. Queremos aqui refletir sobre o discurso ideológico tão “naturalmente” verbalizado pelo prefeito, diante dos conflitos políticos instaurados pela luta dos trabalhadores sem tetos em São Paulo.

Ora, quem, em sã consciência, é contra áreas verdes? Ninguém pode sê-lo. Um planeta sem áreas verdes pode transformar-se em um deserto inabitável. Há muitos radicais defensores do verde e do meio-ambiente e é correto sê-lo. Porém, quando se trata da distribuição sócio-política do espaço, em cidades cada vez mais lotadas de trabalhadores pobres, colocar que a alternativa é escolher entre: 1-construir seis mil moradias populares para trabalhadores que não tem onde morar ou 2-construir uma área verde no local em que essas pessoas ocupam, reivindicando morar é, no mínimo, um contrassenso.

Qual a grande contradição? Justamente pelo fato de o prefeito pertencer ao partido que governa nada mais, nada menos, do que a própria Presidência da República, o PT. E aí vem a fatídica pergunta: por que o PT e o referido prefeito não lutam desesperadamente para preservar, em primeiro lugar, as áreas verdes despovoadas como, por exemplo, a Amazônia que a cada dia segue mais destruída pelo comércio ilegal das madeireiras e pelo desmatamento desenfreado para implantar a criação de gado do agronegócio? Por que não colocar o exército para impedir que madeireiras ilegais e desmatamentos sem fiscalização destruam nossas florestas? Com certeza, todos os trabalhadores honestos apoiariam essas medidas.

Entretanto, com estes destruidores da natureza, madeireiras, agronegócio, o PT e todos os outros partidos que governaram o Brasil até hoje sempre foram bastante condescendentes. O próprio código florestal sancionado pela Presidência da República petista é uma legalização da destruição das áreas verdes, tanto das florestas virgens, quanto das diversas fazendas Brasil afora, que, sem fiscalização, destroem mananciais, matas ciliares, brejos, não garantem reservas mínimas sem desmatamento.

Mas com os trabalhadores pobres, parece que a ideologia capitalista dominante não tem a mesma “piedade”. Ora, sabemos que o êxodo rural mais acelerado do mundo ocorreu no Brasil e empurrou economicamente os trabalhadores pobres das áreas rurais para tentar sobreviver nas cidades, cedendo lugar ao agronegócio, através de posseiros, de carvoeiros e de madeireiras que pavimentaram-destruíram o nosso verde para dar lugar aos milhões de bois, vacas e plantações de soja gigantescas do agronegócio. Os trabalhadores pobres, com o êxodo rural (deslocamento em massa da zona rural para a cidade), entupiram os grandes centros. E todos conseguiram aí uma sobrevivência digna? Não.

Nessas grandes cidades, muitos não encontram sequer um espaço para construir um casebre para esconder-proteger seus corpos. As bolsas famílias oferecidas pelo governo e os empregos temporários precários oferecidos pelo sistema capitalista não são suficientes para garantir moradia para milhares e milhares de famílias, pagar aluguel também se torna impossível em milhares e milhares de situações. Voltar a morar no campo, na zona rural, é impossível na atualidade, pois este espaço está cada vez mais com a produção maquinizada, com emprego de mão de obra bem reduzido, e, sobretudo, ocupado pelas empresas do agronegócio. A esses trabalhadores pobres, concentrados nos grandes centros, não resta alternativa senão lutar para sobreviver, tendo pelo menos um pequenino espaço onde possam levantar sua pequena moradia: surgem nesse processo as construções desenfreadas das grandes favelas e, nos últimos anos, os grandes acampamentos de sem tetos, reivindicando uma moradia popular.

Enfim, com todo esse caos sócio-histórico instalado em nosso país, fruto de nossas profundas desigualdades sociais, jogando um mar de trabalhadores na pobreza, nos vem o prefeito petista sugerir que está bastante preocupado com as “áreas verdes” que devem ser construídas nos grandes centros, em terrenos ocupados por trabalhadores pobres, sem qualquer alternativa de espaço para morar. Ora, temos certeza de que os politicamente lúcidos concordariam conosco: sugerir preocupação com as ÁREAS VERDES nessa situação é, no mínimo, a manifestação verbal de uma ideologia hipócrita!

Por: Gílber Martins Duarte – Socialista Livre – Conselheiro do Sind-UTE-MG e diretor da subsede do Sind-UTE em Uberlândia – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais – Doutor em Análise do Discurso/UFU – Membro da CSP-CONLUTAS.

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4 respostas para MORADIA POPULAR ou ÁREA VERDE: uma disjuntiva hipócrita!

  1. Para reflexão: O ‘perigo vermelho’
    É necessário alertar a população pensante para essa mediocridade ideológica anacrônica e fácil para cooptar jovens sem cultura política
    Retiraram o corpo de João Goulart da sepultura para examiná-lo. Coisa deprimente, os legistas examinando ossos de 40 anos atrás para saber se foi envenenado. Mas, havia também algo de um ritual de ressurreição encenada. Jango voltava para a turma que está no poder e que se considera vítima de 1964 até hoje. Só pensam no passado que os “legitima” com nostalgia masoquista de torturas, heranças malditas, ossadas do Araguaia, em vez de fazerem reformas no Estado paralítico e patrimonialista.
    Querem continuar a “luta perdida” daqueles tempos ilusórios. Eu estava lá e vi o absurdo que foi aquela tentativa de “revolução” sem a mais escassa condição objetiva. Acuaram o trêmulo Jango, pois até para subversão precisavam do Governo. Agora, nossos governantes continuam com as mesmas ideias de 50 anos atrás. Ou mais longe. Desde a vitória bolchevique de 1921, os termos, as ilusões são as mesmas. Aplica-se a eles a frase de Talleyrand sobre a volta dos Bourbons ao poder: “Não aprenderam nada e não esqueceram nada”.
    É espantosa a repetição dos erros já cometidos, sob a falácia do grande “teólogo” da História, Hegel, de que as derrotas não passam de “contradições negativas” que levam a novas teses. Esse pensamento justificou e justifica fracassos e massacres por um ideal racional. No PT e em aliados como o PC do B há um clima de janguismo ou mesmo de “brizolismo”, preferência clara da Dilma.
    Brizola sempre foi uma das mais virulentas e tacanhas vozes contrárias ao processo de desestatização.
    Mas, além dessas mímicas brasileiras do bolchevismo, os erros que querem repetir os comunistas já praticavam na época do leninismo e stalinismo: a mesma postura, o mesmo jargão de palavras, de atitudes, de crimes justificados por mentiras ideológicas e estratégias burras. Parafraseando Marx, um espectro ronda o Brasil: a mediocridade ideológica.
    É um perigo grave que pode criar situações irreversíveis a médio prazo, levando o país a uma recessão barra pesada em 2014/15. É necessário alertar a população pensante para esse “perigo vermelho” anacrônico e fácil para cooptar jovens sem cultura política. Pode jogar o Brasil numa inextrincável catástrofe econômica sem volta.
    Um belo exemplo disso foi a recusa do Partido Comunista Alemão a apoiar os socialdemocratas nas eleições contra os nazistas, pois desde1924 Stalin já dizia que os “socialdemocratas eram irmãos gêmeos do fascismo”. Para eles, o “PSDB” da Alemanha era mais perigoso que o nazismo. Hitler ganhou e o resto sabemos.
    Nesta semana li o livro clássico de William Waack “Camaradas”, sobre o que veio antes e depois da intentona comunista de 1935 (livro atualíssimo que devia ser reeditado), e nele fica claro que há a persistência ideológica, linguística, dogmática e paranoica no pensamento bolchevista aqui no Brasil. A visão de mundo que se entrevê na terminologia deles continua igual no linguajar e nas ações sabotadoras dos aloprados ao mensalão — o fanatismo de uma certeza. Para chegar a esse fim ideal, tudo é permitido, como disse Trotsky: “a única virtude moral que temos de ter é a luta pelo comunismo”. Em 4 de junho de 1918, declarou publicamente: “Devemos dar um fim, de uma vez por todas, à fábula acerca do caráter sagrado da vida humana”. Deu no massacre de Kronstadt, em 21.
    No Brasil, a palavra “esquerda” continua o ópio dos intelectuais. Pressupõe uma “substância” que ninguém mais sabe qual é, mas que “fortalece”, enobrece qualquer discurso. O termo é esquivo, encobre erros pavorosos e até justifica massacres. Temos de usar “progressistas e conservadores”.
    Temos de parar de pensar do Geral para o Particular, de Universais para Singularidades. As grandes soluções impossíveis amarram as possíveis. Temos de encerrar reflexões dedutivas e apostar no indutivo. O discurso épico tem de ser substituído por um discurso realista, possível e até pessimista. O pensamento da velha “esquerda” tem de dar lugar a uma reflexão mais testada, mais sociológica, mais cotidiana. Weber em vez de Marx, Sérgio Buarque de Holanda em vez de Caio Prado, Tocqueville em vez de Gramsci.
    Não tem cabimento ler Marx durante 40 anos e aplicá-lo como um emplastro salvador sobre nossa realidade patrimonialista e oligárquica.
    De cara, temos de assumir o fracasso do socialismo real. Quem tem peito? Como abrir mão deste dogma de fé religiosa? A palavra “socialismo” nos amarra a um “fim” obrigatório, como se tivéssemos que pegar um ônibus até o final da linha, ignorando atalhos e caminhos novos.
    A verdade tem de ser enfrentada: infelizmente ou não, inexiste no mundo atual alternativa ao capitalismo. Isso é o óbvio. Digo e repito: uma “nova esquerda” tem de acabar com a fé e a esperança — trabalhar no mundo do não sentido, procurar caminhos, sem saber para onde vai.
    No Brasil, temos de esquecer categorias ideológicas clássicas e alistar Freud na análise das militâncias. Levar em conta a falibilidade do humano, a mediocridade que se escondia debaixo dos bigodudos “defensores do povo” que tomaram os 100 mil cargos no Estado.
    Além de “aventureirismo”, “vacilações pequeno burguesas”, “obreirismo”, “sectarismo”, “democracia burguesa,” “fins justificando meios”, “luta de classes imutável” e outros caracteres leninistas temos de utilizar conceitos como narcisismo, voluntarismo, onipotência, paranoia, burrice, nas análises mentais dos “militantes imaginários”.
    Baudrillard profetizou há 20 anos: “O comunismo hoje desintegrado tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de des-funcionamento e da desestruturação brutal”, (vide o novo eixo do mal da A. Latina).
    Sem programa e incompetentes, os neobolcheviques só sabem avacalhar as instituições democráticas, com alguns picaretas-sábios deitando “teoria” (Zizek e outros). Somos vítimas de um desequilíbrio psíquico. Muito mais que “de esquerda” ou “ex-heróis guerrilheiros” há muito psicopata e paranoico simplório. Esta crise não é só politica — é psiquiátrica.

    • Aldegunda Carames More disse:

      A esquerda marxista caviar é realmente podre. Diga-me com quem andas que te direi quem és. E você, prezado leitor? Prefere a esquerda caviar ou a direita racional? Defendem um sistema que mata milhões pela fome e pela guerra e depois aparecem dizendo defender os direitos humanos. E pior: assassinos, estupradores e ladrões! Mas não se enganem com o filme Tropa de Elite 2, pois ao final, o esquerdista acaba sendo narrado como incorruptível e prestativo com a população – o que não condiz com a natureza destes bandidos!

      • Michele disse:

        O triste é ver o tamanho do buraco que os comunas já escavaram para nós e a profundidade em que nos encontramos. A sociedade brasileira é majoritariamente conservadora, porém os os instrumentos de poder estão nas mãos dos esquerdopatas. Há sementes sendo plantas por pessoas do bem como o Gladimir, mas temo que quando a semente começar a dar frutos será tarde demais para mudar o cenário.

      • Maria Justina disse:

        A admiração destes apátridas por Cuba não é sustentada por um modelo que visa o bem estar do povo. O que estes comunistas/socialistas pretendem é estiolar o povo, que sob o jugo destes monstros fica incapaz de reagir. O grande trunfo deste regime ditatorial é que quem está no poder vive como NABABO, à custa da miséria do povo.

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