O desânimo da classe trabalhadora é contra-revolucionário: serve à reprodução das relações de produção.

É uma lacuna político-teórica os revolucionários marxistas-socialistas não levarem a sério uma discussão aprofundada acerca do sentimento de desânimo, mesmo que sejam os desânimos conjunturais e pontuais que contaminam a classe trabalhadora. Em nossa filosofia política de luta pelo Socialismo Livre, levamos em conta as várias dimensões do ser social, inclusive a dimensão emocional. Sempre que estamos em movimento, chamando os trabalhadores para a luta, chamando-os para uma greve, chamando-os para uma passeata, chamando-os para um debate teórico-socialista, chamando-os para um enfrentamento contra os governos e patrões, não tarda encontrarmos a ideologia burguesa do desânimo argumentando contra a filosofia dos lutadores marxistas-socialistas.

Do ponto de vista da classe trabalhadora, que sofre tantos ataques cotidianos do sistema capitalista, a ideologia emocional do desânimo não ajuda em nada nossa classe, ao contrário, é contra-revolucionário e serve tão somente para ajudar a reproduzir as relações de produção capitalistas baseadas na exploração e na opressão. Nossa tese é simples: trabalhador desanimado, deprimido, frustrado é muito fácil de ser escravizado, oprimido, explorado. Trabalhador infeliz, trabalhador deprimido, trabalhador doente emocionalmente, lamentavelmente, tem muito menos reação perante as opressões, perante as explorações e perante as escravidões que sofrem.

O desânimo é uma dor emocional ideológica eternizada, perpetuada, naturalizada pela ideologia burguesa dominante. Ao invés de se incentivar a luta e a alegria revolucionária de se lutar para mudar o mundo, quando o mesmo não se encontra como desejaríamos, a ideologia burguesa incentiva a descrença, incentiva o discurso da impossibilidade de mudança, incentiva o discurso de que é “muito difícil mudar”, incentiva o discurso de que “não adianta fazer nada”. No fundo, as classes dominantes e os desanimados desavisados e despolitizados que colaboram com elas, preferem ver gente sofrida, preferem ver gente infeliz, preferem ver gente fraca. Os fracos aceitam e confirmam a exploração e a opressão dos opressores resmungando, mas nada além disso: resmungues e lamentos. Os fracos, os desanimados não tem energia emocional suficiente para transformar o sofrimento emocional em rebeldia positiva e consciente contra o sistema que os oprime e os explora.

Portanto, em nossa tese, o desânimo precisa ser entendido como mais um elemento da ideologia burguesa ou das ideologias opressoras que existiram e existem. Ora, esse desânimo que contamina a classe trabalhadora, muitas vezes, chega a ser contagioso, ou seja, aos invés de os lutadores marxistas-socialistas entenderem essa ideologia do desânimo e terem consciência de que a mesma está a serviço da burguesia e da reprodução da exploração-escravidão-opressão dos próprios trabalhadores, procurando, no movimento, dialogar e educar as parcelas dessa classe trabalhadora desanimada contra esse sentimento tão nocivo para a nossa classe, não é raro vermos os próprios lutadores marxistas-socialistas se desanimando perante o desânimo dos outros. Compreenderam o ponto a que queremos chegar? Estamos militando, queremos mudar o mundo, somos sindicalistas, somos revolucionários socialistas livres e então deparamo-nos com o desânimo da classe trabalhadora em lutar, em um dado momento, em uma dada conjuntura. O que acontece? Compreendemos esse fenômeno como mais um elemento da ideologia burguesa a serviço da exploração, atravessando nossa classe? Muitas vezes não. O desânimo é uma doença contagiosa. O desânimo nos pega. Ou seja, o lutador marxista-socialista desanima ao ver o desânimo do outro, ao invés de ser um elemento revolucionário sadio a apontar saídas para essa classe trabalhadora totalmente abatida pela ideologia burguesa.
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Se a classe trabalhadora está animada é fácil, o lutador marxista-socialista se anima, começa até a marcar a data da revolução, risos. Mas se a classe trabalhadora está desanimada, o lutador marxista-socialista deixa-se abater. Já presenciei muitos companheiros caindo nessa cilada emocional negativa do desânimo, ou seja, rendendo-se à ideologia burguesa do desânimo que serve tão simplesmente para manter a escravidão, a exploração e a opressão tal qual são e estão. Nesses casos, o marxista-socialista começa a brigar e a xingar a própria classe no seio do movimento, como se isso adiantasse alguma coisa. No fundo, o marxista-socialista, quando perde a clareza emocional revolucionária, já caiu no canto da sereia do desânimo, já adoeceu, já caiu junto, a doença coletiva do desânimo passa a ser também a sua doença e a soma de frustrados e desanimados só produz mais força cega.

Nós, que lutamos pelo socialismo livre, temos consciência da ideologia burguesa que incentiva o desânimo e refletimos sobre ela. A única saída que existe contra essa doença é a reflexão e a discussão clara acerca desses elementos ideológicos burgueses que atravessam a nossa classe, cumprindo a função de arrefecer-congelar-paralisar a luta de classes, reproduzindo o status quo explorador-opressor. Nesse sentido, não podemos jamais escolher o engodo do desânimo como nosso parceiro revolucionário, mesmo quando nos deparamos com uma classe trabalhadora totalmente doente e desanimada. O desânimo é um dos maiores inimigos da revolução socialista livre. É uma ideologia burguesa que vez ou outra insiste em viver dentro de cada um de nós, paralisando e abalando a confiança de que podemos mudar o mundo. É preciso ter clareza de que esse desânimo é um elemento ideológico implantado em nossa classe tão somente para escravizar-nos, explorar-nos, oprimir-nos. Nós, socialistas livres, somos revolucionários também emocionalmente. Nosso limite é o impossível e o desânimo nosso inimigo ideológico de classe. Não somos desanimados, somos rompidos com todas as variações da cultura ideológica burguesa, inclusive a cultura do desânimo.

Por: Gílber Martins Duarte – Socialista Livre – Conselheiro do Sindute-MG e diretor da subsede do Sindute em Uberlândia – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais – Doutorando em Análise do Discurso/UFU – Membro da CSP-CONLUTAS.

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2 respostas para O desânimo da classe trabalhadora é contra-revolucionário: serve à reprodução das relações de produção.

  1. Vinicius disse:

    Jessé de Souza vê nos párias, nas pessoas com subemprego, desempregados crônicos e etc, a nova classe revolucionária, no Brasil. É interessante pensar nisso.

  2. No posfácio da segunda edição de O capital, datado de janeiro de 1873, observa Marx a incompreensão a respeito do método dialético dessa obra, e comenta, ironicamente, a resenha escrita por Roberty, um discípulo de Augusto Comte. Escreve Marx: “a Revue Positiviste me acusa de que eu, por um lado, trato a Economia metafisicamente e, por outro – adivinhem!-, de que eu me limitaria à mera análise crítica do dado, em vez de prescrever receitas (comteanas?) para a cozinha do futuro”. Mais adiante, no mesmo posfácio, comentando outra resenha, aquela que havia sido publicada no Correio Europeu, de Petersburgo, Marx cita trecho no qual apareceria de forma precisa a descrição do seu verdadeiro método. Escrevera o autor: “Para Marx, só importa uma coisa: descobrir a lei dos fenômenos de cuja investigação ele se ocupa. E para ele é importante não só a lei que os rege, à medida que eles têm forma definida e estão numa relação que pode ser observada em determinado período de tempo. Para ele, o mais importante é a lei de sua modificação, de seu desenvolvimento, isto é, a transição de uma forma para outra…”.
    Esses dois trechos do posfácio de 1873 resumem bastante bem o que gostaríamos de discutir aqui: qual é o conceito dialético de transição, ou seja, qual o conceito propriamente marxista de transição? Em que o conceito marxista de transição se diferencia das receitas comteanas de futuro?
    OS SENTIDOS DE TRANSIÇÃO PARA MARX

    Quando se menciona a noção de “transição” em teoria marxista, três sentidos fundamentais se confundem, às vezes sem maiores explicitações.
    1)Um primeiro sentido é aquele de que “transição” significa o modo pelo qual se caminha do interior do modo de produção capitalista ao momento revolucionário da tomada do poder de Estado pelo proletariado.
    2)O segundo sentido corrente é aquele de que “transição” designa o período que se desenvolve após a tomada do poder. Esta transição se desenvolveria por um longo período, em diversas fases, do socialismo ao comunismo.
    3)Um terceiro sentido é aquele de que “transição” designa o período de passagem de qualquer modo de produção para outro. Ou seja, indistintamente, da comunidade primitiva ao modo de produção asiático, do asiático ao modo de produção escravista ou ao feudal, deste ao capitalismo, ou ainda, do capitalismo ao socialismo e comunismo.
    Para os conhecedores da obra de Marx, pode-se dizer que esses três sentidos de transição, de alguma maneira, estão presentes nos seus textos, no entanto, em forma, em extensão e em importância desiguais. Existiria um sentido hegemônico ou fundamental? Qual seria ele?

    O SENTIDO PRIMEIRO DE TRANSIÇÃO

    Pensamos que o sentido fundamental, aquele determina e, assim, rege metodologicamente os outros sentidos, é o primeiro deles. Ou seja, como afirmara o autor de Petersburgo: “Para Marx, só importa uma coisa: descobrir a lei dos fenômenos de cuja investigação ele se ocupa”. Do que se ocupou Marx, quase a vida inteira? O que ele investigou? Ele investigou e ocupou-se do capitalismo e do capital. Assim, ele investigou a lei que rege os fenômenos do capital e do capitalismo. Porém, como dizia ainda o mesmo autor: para Marx “é importante não só a lei que rege os fenômenos estudados (…). Para ele, o mais importante é a lei de sua modificação, de seu desenvolvimento, isto é, a transição de uma forma para outra”. Assim, Marx estudou as leis que regem o presente capitalista, mas, sobretudo, a lei da modificação deste presente capitalista posto, a transição deste presente capitalista posto para algo de outro. Marx procurou encontrar, assim, o caminho negativo deste presente capitalista posto. Portanto, é este sentido de transição o predominante, aquele que prevalece sobre os outros dois sentidos, e os determina dialeticamente.

    A DIALÉTICA ENTRE O PRIMEIRO E O TERCEIRO SENTIDO

    Assim, Marx desenvolve, para estudar os pressupostos, uma teoria da história dos modos de produção anteriores. Um primeiro desenvolvimento nesse sentido aparece na Ideologia alemã, depois no Manifesto Comunista e, de forma mais rigorosa nos manuscritos de 1857/58. Particularmente, este desenvolvimento ocorre em trecho desses manuscritos, aquele conhecido como Formações econômicas pré-capitalistas. Neste escrito, Marx volta-se para as diversas formações que antecederam o capitalismo, ao investigar os modos de produção pré-capitalistas, os investiga ainda e sempre do ponto de vista da negação do presente capitalista posto procurando os seus pressupostos. Assim, a partir da reflexão dialética sobre os outros modos de produção, desvelará a especificidade do modo de produção capitalista e a gênese histórica de cada uma das suas principais contradições e categorias: mercadoria, valor de uso e valor, trabalho abstrato e trabalho concreto, trabalho social e trabalho individual, dinheiro, extração de trabalho excedente, separação dos produtores dos meios de produção e, claro, acima de tudo, a particular especificidade de cada forma efetiva da luta de classes no interior das próprias categorias estruturais de cada modo de produção.
    Assim, uma leitura atenta das “Formações econômicas pré-capitalistas” mostra que Marx, nesse texto, em nenhum momento se afasta do próprio presente capitalista, ou seja, não se afasta do seu objeto central de investigação, aquele que rege a sua preocupação: o presente capitalista a ser negado. A ida ao passado, para Marx, é o trabalho negativo que revela os pressupostos do presente, realizando a compreensão e a determinação de uma primeira negação do presente, uma negação pelo passado. Nessa direção, pode-se recordar a compreensão do modo de produção escravista feita por Marx nas “Formações econômicas pré-capitalistas”. A sua análise permite compreender a diferença específica entre trabalho escravo e trabalho livre: em ambos há extração de tempo de trabalho excedente, porém, no escravismo (forma greco-romana), a classe dominante é proprietária privada do próprio trabalhador. Os trabalhadores, assim, estão entre os próprios meios de produção, sendo similares a instrumentos de trabalho. Já no processo de trabalho capitalista, o trabalhador é livre e proprietário da sua força de trabalho que é vendida como mercadoria. Como se vê, a diferença na apropriação das forças produtivas estabelece as diferenças radicais que existem entre as relações de produção escravistas e as capitalistas. Da mesma forma, Marx mostra como cada modo de produção se diferencia do outro e, particularmente, como todos eles se diferenciam em relação ao modo de produção capitalista a partir da forma pela qual ocorre a apropriação das forças produtivas. A transição de um modo para outro se dá, portanto, a partir da transformação na apropriação das forças produtivas. Por exemplo: a passagem da forma asiática para a greco-romana só é possível graças ao surgimento da apropriação privada das forças produtivas. Na primeira, a asiática, o único proprietário é a unidade superior estatal que se ergue sobre a comunidade, em geral, investida por ideologias religiosas. Da mesma maneira, a passagem do feudalismo ao capitalismo se dá pela transformação na forma de apropriação das forças produtivas: liberação dos servos em relação aos senhores e separação dos produtores diretos em relação aos meios de produção. Se a transição de um modo de produção para outro, segundo Marx, ocorre sempre pela transformação na apropriação das forças produtivas que gera novas relações de produção, esta apropriação, inicialmente, não deve e não pode ser pensada como “jurídica”, ou seja, não ocorre ao nível da superestrutura, mas sim, ao nível da própria estrutura, ainda que, claro, posteriormente, esta apropriação tende a receber uma forma jurídica superestrutural. Não compreender esta diferença temporal entre a apropriação (primeira) na instância da estrutura e a forma jurídica posterior desta apropriação, na instância da superestrutura, é não compreender absolutamente nada da teoria da transição de Marx.
    Esta diferença temporal se explica, do ponto de vista de Marx, porque, para ele, um novo modo de produção não surge imediatamente, ou em uma ou duas décadas. Não é assim o resultado de decretos, conspirações, ou atos meramente políticos. Mas sim, ao contrário, um novo modo de produção nasce das contradições profundas arraigadas em centenas de anos do modo de produção anterior. Assim, os pressupostos de um modo de produção estão no seu passado, estão nos modos de produção anteriores. Por isso, para compreender bem o presente capitalista posto, Marx precisa investigar os pressupostos do capitalismo. E compreendendo bem o presente capitalista posto, Marx investiga, ao mesmo tempo, os pressupostos do novo modo de produção possível, o comunismo. Apesar de que muitos não compreendem nem isto, Marx cansou de insistir e insistir, desde a Ideologia alemã, passando pelo Manifesto, pelos Manuscritos de 57/58, até O capital, Marx cansou de expor e expor, e de forma cada vez mais determinada, que estudava os pressupostos do capitalismo para compreender o próprio capitalismo, e que procurava compreender essencialmente o capitalismo porque este estava gerando, dentro de si próprio, isto é, de forma imanente, as novas forças produtivas e as novas relações de produção, ou seja, os pressupostos do modo comunista de produção.

    Nesse sentido, comentando o livro de Bakunin intitulado O estado e a anarquia, exclama Marx: “Que estupidez escolar! Uma revolução social radical se encontra submetida a determinadas condições históricas de desenvolvimento econômico; estas condições são o seu pressuposto”. E mais adiante acrescenta: “Decididamente, ele não compreende nada da revolução social; só conhece sua fraseologia política; para ele, não existem as condições econômicas desta revolução”. Explica Marx, logo a seguir, que Bakunin acredita ser possível a revolução socialista em qualquer situação de exploração, Marx, “Anotações ao livro de Bakunin O estado e a anarquia”, (texto de 1874/75), p. 435, II, in Marx e as diversas formas de exploração. E conclui o seu comentário dizendo que, para Bakunin, “a base de sua revolução é a vontade e não as condições econômicas”.
    Mas, o pior de tudo era perceber incompreensão similar no próprio partido operário alemão, ainda em 1875, ou seja, oito anos após a publicação do livro primeiro de O capital, como atesta o chamado “Programa de Gotha”. Como observa Engels, Marx e ele estavam mais estreitamente ligados ao movimento operário alemão e viram com grande preocupação “o decisivo retrocesso que se manifestava neste projeto de programa”. Marx fez a crítica detalhada desse retrocesso que consistia, fundamentalmente, em projetar detalhadamente o futuro socialista com uma série de receitas éticas, jurídicas, superestruturais, esquecendo a rigorosa investigação marxista dos pressupostos estruturais do capitalismo.

    O CAMINHO DA NEGAÇÃO PERCORRIDO POR MARX

    Para explicitarmos essa questão, cabe recordar, particularmente, o item 7 do capítulo XXIV do livro I de O capital, onde Marx expõe de maneira sintética a tendência histórica da acumulação capitalista. Primeiramente, ocorreu a expropriação dos proprietários das condições de trabalho, o camponês e o artesão. E comenta Marx que esse “modo de produção pressupõe o parcelamento do solo e dos demais meios de produção”. Trata-se, continua Marx, de uma forma “só compatível com estreitas barreiras naturalmente desenvolvidas da produção e da sociedade”. Aponta Marx, logo a seguir, o destino limitado da forma camponês-artesanal de apropriação e pretender eternizá-la “ significaria, como diz Pecqueur, com razão, ‘decretar a mediocridade geral’. Em certo nível de desenvolvimento, produz os meios materiais de sua própria destruição”. Ocorre assim a expropriação da massa do povo e este longo e difícil processo constitui “a pré-história do capital”. Mas, tão logo esse processo, continua Marx, tenha decomposto a antiga sociedade, “a socialização ulterior do trabalho e a transformação ulterior da terra e de outros meios de produção em meios de produção socialmente explorados, portanto coletivos, a conseqüente expropriação ulterior dos proprietários privados ganha nova forma”. Aquele que começa agora a ser expropriado não é mais o produtor direto, mas sim, o capitalista que explora trabalhadores. Esta expropriação começa internamente à própria classe capitalista e produzindo ainda no interior do próprio capitalismo as forças produtivas e as relações de produção de um novo modo de produção.
    Tanto é assim que, num certo momento desse desenvolvimento, segundo Marx, essas novas forças produtivas e novas relações de produção (sociais e coletivas) são travadas pelas relações capitalistas (privadas) de produção que ainda subsistem, ou seja, aquelas (novas forças e relações) não podem permanecer se desenvolvendo no interior da forma de apropriação capitalista. Como afirma Marx em O capital: “O monopólio do capital torna-se um entrave para o modo de produção que floresceu com ele e sob ele. A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho atingem um ponto em que se tornam incompatíveis com o seu invólucro capitalista”. Observe-se que o “invólucro capitalista” que ainda envolve, nessa fase, as forças produtivas e relações de produção, seria como que uma casca capitalista superficial que oculta um conteúdo socialista já desenvolvido. Mas então, o que ocorre com tal invólucro capitalista? Responde Marx: “Ele é arrebentado. Soa a hora final da propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados”. Reafirmando esse caráter imanente da transição, após descrever a primeira negação diz um pouco adiante Marx: “O sistema de apropriação capitalista surgido do modo de produção capitalista, ou seja, a propriedade privada capitalista, é a primeira negação da propriedade privada individual, baseada no trabalho próprio”. Vem, a seguir, de forma também imanente e dialeticamente contraditória, a segunda negação, a negação da negação: “Mas a produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação”. Esta não restabelece, explica ele, a propriedade privada, mas sim, a “propriedade individual”, ou seja, restabelece aquela forma de propriedade que foi negada pelo capitalismo, mas sobre uma base social, isto é, “sobre o fundamento do conquistado na era capitalista: a cooperação e a propriedade comum da terra e dos meios de produção produzidos pelo próprio trabalho”.

    O SEGUNDO SENTIDO DE TRANSIÇÃO E A DITADURA DO PROLETARIADO

    Assim, a partir da negação do presente, do presente posto pelo pressuposto, Marx determina de maneira mais precisa as categorias do presente e desvela as suas contradições, descobrindo as tendências de outra negação, a negação da negação, aquela que coincide com a expropriação dos expropriadores, a ditadura do proletariado. Desta maneira, pode-se dizer que o primeiro sentido de transição, a transição à ditadura do proletariado, recebe todas as suas determinações do terceiro sentido de transição, aquele que investiga a transição nos diversos modos de produção. Marx não falaria, assim, do segundo sentido de transição (aquele que descreve a transição entre a tomada do poder pelo proletariado e o socialismo ou comunismo)? Marx não falou do futuro distante? Quando falou, em geral, falou muito pouco e de forma apenas aludida. Pois, de fato, como afirma corretamente Mészáros: “A questão de como passar do mundo negado do capital ao reino da meramente ‘aludida’ (expressão de Marx) nova forma histórica não poderia ocupar nenhuma parte no projeto teórico de Marx”. E acrescenta ele que, de fato, Marx menosprezava aqueles que se dedicavam “a especulações sobre o futuro”.
    Como se vê, Marx não se preocupou com o futuro distante ou transição para muito além da ditadura do proletariado e até ironizou aqueles que, como Comte, o fazem. Mas, por que? Seria uma lacuna (mais uma?) a ser preenchida na obra de Marx? Não acreditamos. Para ele, compreender bem o presente e os seus pressupostos seria o suficiente! Isto seria o suficiente para realizar as tendências negativas contidas no presente, para realizar a negação possível deste presente. Seria pouco? Pensamos que somente parece pouco para aqueles que jamais compreenderam o que significa a plena dimensão desta transição determinada e pensada por Marx, aquela que conduz à ditadura do proletariado. A ditadura do proletariado em um país, para ele, não é ponto de chegada algum, mas sim, apenas um dos elos da longa trajetória da revolução permanente mundial que superará o mercado mundial capitalista e que realizará a ditadura do proletariado nos países dominantes do mundo. Como escreviam Marx e Engels em 1850, na Mensagem à Liga dos Comunistas: “Enquanto os pequeno-burgueses democratas querem concluir a revolução o mais rapidamente possível, depois de terem obtido, no máximo, as reivindicações mencionadas, os nossos interesses e as nossas tarefas consistem em tornar a revolução permanente até que seja eliminada a dominação de todas as classes mais ou menos possuidoras, até que o proletariado conquiste o poder de Estado, (…) não só num país, mas em todos os países predominantes do mundo (…)”. Somente assim, segundo Marx, a revolução socialista em um país não seria reabsorvida pelo mercado capitalista mundial. Conjuntamente à teoria internacionalista, como se sabe, Marx e Engels se dedicaram intensamente à militância internacionalista na Liga Comunista e na I Internacional. No entanto, sempre tiveram que enfrentar, durante toda a vida, aqueles que, sem pensar de forma determinada o presente capitalista, sem examinar as contradições do presente, sem examinar a negatividade possível do presente, preferiam falar do futuro.

    OS COZINHEIROS DO FUTURO E OS BOLCHEVIQUES

    A experiência da Revolução Russa, porém, inicialmente, não mostrava essa direção equivocada. Ao contrário, Lênin, Trotsky, Preobrazhensky e a maioria dos bolcheviques, não consideravam a transição diferentemente de Marx e Engels. Os bolcheviques seguiam, em linhas gerais, o que fora apontado em toda a obra de Marx e Engels, em O capital, e sintetizado, de forma brilhante e profética, no prefácio da edição russa do Manifesto Comunista em 1882. Nesse prefácio Marx e Engels perguntam se poderia a Rússia passar da comunidade rural existente, forma degenerada da primitiva propriedade comum, à forma superior comunista, sem passar por um desenvolvimento capitalista e respondiam de forma inequívoca, seguindo o que sempre disseram: “se a revolução russa dá o sinal para uma revolução proletária no Ocidente, de modo que ambas se completem, a atual propriedade comum da terra na Rússia poderá servir de ponto de partida para um desenvolvimento comunista”. Ou seja, para Marx e Engels, para Lênin e para a maioria dos bolcheviques, a revolução russa socialista era possível, mas, precisava dos pressupostos capitalistas (forças produtivas desenvolvidas e relações de produção correspondentes) e era absolutamente inseparável da revolução européia.
    Após a morte de Lênin, no entanto, contrariando toda a teoria marxista, desenvolveu-se a teoria do socialismo em um só país, e o que é pior, num país atrasado.
    Bukharin, em sentido contrário àquele da teoria marxista, e expressando os interesses de uma burocracia que já começava a desenvolver interesses próprios, iniciava a elaboração de uma teoria de transição na qual o mercado passava a ter um papel fundamental. Nesse sentido, escrevia ele: “Através da luta no mercado, através das relações de mercado, e através da competição, as empresas do estado e as cooperativas deslocarão seu competidor, isto é, o capital privado. No final do processo, o desenvolvimento de relações de mercado trará a sua própria destruição”. Detalhando o seu plano de transição pelo mercado, afirma ainda Bukharin que as indústrias estatais e as cooperativas, gradualmente, prevalecerão sobre as outras formas da economia e as eliminarão totalmente, até que, por último, “mais cedo ou mais tarde, o próprio mercado desaparecerá, sendo substituído pelas cooperativas-estatais que distribuirão tudo o que for produzido”. Sabemos hoje bem onde terminou essa teoria de transição pelo mercado – retomada no período da perestroika. Quem liquidou com quem? O socialismo ao mercado ou o mercado ao socialismo?
    Em sentido contrário, embasados na teoria clássica de Marx e Engels, levando em conta os pressupostos do conceito de capital, Trotsky e Preobrazensky sustentaram a posição de que planificação e mercado são incompatíveis. Na mesma direção de Marx e Engels, seguindo as tarefas do presente, procurando a transição do presente posto ao futuro próximo da ditadura do proletariado, como e enquanto transição inseparável da revolução permanente, desde o começo da década de 20, desenvolveu Trotsky a Oposição de Esquerda no interior da URSS e depois internacionalmente. Da mesma maneira, após a falência da III Internacional, fundando uma nova internacional, Trotsky elaborou o chamado “Programa de Transição”, um programa que absorvendo as experiências revolucionárias da primeira metade do século XX, continuou diretamente estruturado na própria teoria de O capital, superando as diferenças entre um programa mínimo reformista e um programa máximo para os dias de festa. Nesse sentido, pensamos que a procura de um novo programa ou de uma nova teoria de transição para o século XXI é a proposta daqueles que, ainda e mais uma vez, preferem receitas da cozinha do futuro ao invés do conceito de transição elaborado por Marx.

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