Por que a linguagem é perigosa?

O senso comum pensa que a linguagem é um instrumento de comunicação, mas esta é uma visão míope da linguagem: por meio e através desta, criam-se, legitimam-se, eternizam-se, confrontam-se, conformam-se, consensuam-se, disputam-se, conservam-se, mudam-se, idealizam-se, projetam-se, resgatam-se, inauguram-se modos e propostas de funcionamento da vida econômico-político-jurídico-social-ideológica-discursiva. As diversas práticas sociais são desenhadas-construídas-projetadas também e, sobretudo, com a participação ativa da LINGUAGEM.

Nós, da Análise Materialista do Discurso, de viés marxista, sabemos que fatores econômicos como o trabalho em relação com as matérias primas e matérias vivas da Natureza são a grande força motriz da sociedade, já que constituem a base determinante para a existência das diversas práticas sociais tais quais se desenvolveram até hoje no Planeta. Todavia, sem o desenvolvimento social da MATERIALIADADE DA LINGUAGEM, ousaríamos afirmar que o “homem ainda não teria deixado de ser macaco”. Ao dizermos isso, estamos contrapondo-nos parcialmente à tese de Engels, quando este afirma que “o trabalho transformou o macaco em homem”. Concordamos apenas em parte com essa tese de Engels, porque o desenvolvimento da linguagem também foi fundamental enquanto condição para se fundar e desenvolver e manter as bases da sociedade econômico-jurídico-político-social-ideológica-discursiva tal qual a conhecemos.

Alguns fenômenos parecem estar inatos em nós, como a visão, a audição, o tato, o paladar, o olfato, a pulsação, a linguagem, etc, isto é, estes fenômenos parecem algo eterno em nosso corpo, mas não o são. Em nossa visão materialista, o corpo, não possuindo nenhuma deficiência, já nasce sendo capaz de ouvir, ver, cheirar, pulsar, etc, mas precisa APRENDER a exercer a prática social da linguagem para atender melhor às necessidades da vida e para atender melhor às necessidades de interação social, da mesma forma que o corpo precisa aprender a exercer prática social do trabalho e diversas outras práticas sociais para sobreviver, etc.

Especificamente em relação à linguagem, à medida que nos tornamos cada vez mais linguisticamente complexos na arte de praticá-la, sem dúvida, aumenta-se o nosso poder de interação e intervenção social. Portanto, não se ensinar continuamente o desenvolvimento pleno da linguagem aos seres sociais é por antecipação legitimar a prática social de que apenas alguns seres sociais terão mais poder social do que os outros. Precarizar escolas públicas para que não se formem seres sociais que dominem plenamente a prática social da linguagem faz parte dessa cultura burguesa capitalista-exploradora-opressora-atrasada-excludente que, deliberadamente, concentra o poder nas mãos de poucos “iluminados”, que, via linguagem, dizem o que deve ser feito-praticado e o que não deve ser feito-praticado, construindo verdades unilaterais que, em sua maioria, servem para ratificar-defender a reprodução das relações de produção, ao mesmo tempo em que se criam as condições para sufocar-esconder as possíveis práticas sociais de linguagem que apontem para transformações profundas e radicais da sociedade.

A luta por apoderar-se da linguagem é uma das facetas da luta de classes mais estratégica que existe, apesar de muitas vezes não se dar conta disso no plano consciente da teoria, fruto da educação torta de linguagem que a maioria recebe nessa escola positivista-burguesa atual nada interessada na formação de seres sociais cada vez mais exigentes e críticos. Da ignorância em relação à prática de linguagem não brotará nenhuma revolução, e não estamos falando aqui de “falar certo ou falar errado”, outro senso comum usado deliberadamente pelas classes dominantes para intimidar a voz dos oprimidos: estamos falando aqui do exercício político de tomar para si a responsabilidade de ser um cocriador das diversas práticas sociais via linguagem. Dominar a prática social da linguagem é transformar-se em um ser político interferente no rumo das práticas sociais a serem concretizadas ou não.

Não é por acaso que a censura acerca do que pode ou não pode ser dito é a disputa política mais atual que existe, porque aquilo que é dito ou não dito implica no que pode ou não pode ser feito; não é por acaso que a luta por conquistar espaços para se exercer a prática social da linguagem é a disputa política mais ferrenha, quando se trata de determinar quem vai exercer ou não vai exercer o poder, porque isso também implica no que pode ou não pode ser feito; não é por acaso que alguns corpos revolucionários-rebeldes estão impedidos de praticar a linguagem em determinados espaços sociais, principalmente nos espaços da grande mídia, lugar por excelência da prática social da linguagem a serviço da conservação do status quo, obviamente porque a linguagem dos revolucionários e rebeldes podem abalar as pretensas verdades das classes dominantes.

Enquanto Socialista Livre, Analista do Discurso, fazendo da prática da Linguagem Escrita um exercício cotidiano contra o senso comum, contra a exploração, contra a opressão, contra os atrasos, contra os obscurantismos, contra os autoritarismos, já provamos algumas doses da censura à Prática Social da Linguagem, inclusive na INTERNET, lugar social em que supostamente os revolucionários e rebeldes poderiam falar mais livremente. Mas, na prática, não é bem assim. Grupos políticos, até mesmo alguns que se autoproclamam por aí de socialistas revolucionários e democráticos, não pestanejam em excluir de seus grupos de publicação de linguagem via internet aqueles que incomodam as pretensas verdades divulgadas em suas teses e práticas. Por que os grupos políticos, até na internet, censuram o que pode e o que não pode ser dito? Porque a linguagem é perigosa, coloca em dúvida a construção de dadas práticas sociais nem sempre as mais justas, nem sempre as mais refletidas, nem sempre as mais coerentes: o que é feito e o que não é feito, o que vai ser feito ou não vai ser feito, o que pode ser feito ou não pode ser feito passa pela linguagem antes de tudo, por isso teme-se o debate inteligente e aberto, via linguagem, como se teme o diabo nas concepções obscurantistas.

Conclusão: Linguagem não é instrumento de comunicação, esta é uma concepção antiga e pouco refletida. Linguagem é uma das MATERIALIDADES MAIS VIVAS DA LUTA pela construção das práticas econômico-político-jurídico-ideológico-sociais. É por isso que a linguagem é muito perigosa. Ela também é muito perigosa, por exemplo, para os que têm medo do Socialismo Livre, concepção econômico-político-jurídico-ideológico-jurídico-social que luta para dar voz às causas dos sem voz: todos os explorados e oprimidos e todos os revolucionários e rebeldes das mais variadas tradições político-teóricas. Para nós, a liberdade de crítica e a liberdade de expressão via linguagem é um princípio sagrado: o diálogo crítico-inteligente permanente é o que pode libertar a humanidade de suas trevas sócio-teórico-econômico-jurídico-ideológico-existenciais. Nosso grupo Socialistas Livres, no Facebook, por exemplo, é plenamente aberto e todos são convidados a participar dos debates realizados no mesmo. Dali jamais um companheiro ou companheira será expulso por pensar e escrever coisas PERIGOSAS.

Por: Gílber Martins Duarte – Socialista Livre – Conselheiro do Sindute-MG e diretor da subsede do Sindute em Uberlândia – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais – Doutorando em Análise do Discurso/UFU – Membro da CSP-CONLUTAS.

Anúncios

Sobre socialistalivre

Esse Blog está a serviço da Luta pelo Socialismo. Defendemos a plena liberdade do ser humano, mas somos radicalmente contra a liberdade de explorar, como a burguesia faz, e contra a liberdade de oprimir como os machistas fazem, os racistas fazem, os homofóbicos fazem, os praticantes de bullying fazem, os preconceituosos fazem, os possessivos fazem e os autoritários de plantão fazem. Assim, defendemos que cada corpo-consciência deve ter liberdade de ser o que ESCOLHE SER, desde que esta liberdade não oprima e explore os outros! Defendemos a plena liberdade de postura crítica e a plena democracia operária, todos devem ter o direito de expressar o que pensam! Defendemos a Revolução Socialista e a necessidade de libertação da classe trabalhadora do jugo do capitalismo. No entanto,somos contra comandos de hierarquias políticas ou de figuras públicas mais poderosas no seio dos lutadores que travam a batalha pelo socialismo. Defendemos que cada militante deve ousar pensar por si mesmo, cada militante deve ter o direito de concordar, mas também de discordar daquilo que julga equivocado, por isso nos definimos como Socialistas Livres e esse Blog está a serviço dos que desejam militar de acordo com essa concepção. Convidamos a todos a conhecerem nosso jeito diferente de entender e de praticar a política socialista, com liberdade, democracia operária, direito de crítica e respeito ao diferente. Saudações Socialistas Livres.
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Por que a linguagem é perigosa?

  1. Pingback: Por que a linguagem é perigosa? | socialistalivre | CLIPPING DE NOTÍCIAS DA SENAPRO-PCO

  2. Parabéns pelo blog. Precisamos de mais iniciativas deste tipo no Brasil. Pode me responder uma pergunta? Qual é seu diálogo com a linha da Análise do Discurso francesa (pós-estruturalista)? Deixo desde já minhas saudações.

    • Companheira, não temos nenhum preconceito teórico com nenhuma das vertentes da Análise do Discurso, embora nossa opção política seja pela Análise Materialista do Discurso de Michel Pêcheux, de viés marxista, com a qual mais nos interpelamos, devido ao seu viés de jamais apagar a luta de classes. As teorias de Análise do Discurso que apagam a questão da luta de classes tem uma relativa importância enquanto teoria crítica, mas não tem transformação das relações de produção como projeto, aquientando-se nos marcos do capitalismo. E como diria Althusser: Filosofia é luta de classes na teoria, o que serve também para a Análise do Discurso. Grande abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s