Teoria: os objetos também interpelam os indivíduos-corpos-inteligentes em sujeitos de suas ações!

Segundo a visão materialista postulada pelo Marxismo-Althusserianismo e desenvolvida pela Análise Materialista do Discurso de Michel Pêcheux, é um equívoco pensar que o indivíduo-corpo-inteligente é senhor absoluto de sua liberdade de escolha e detentor absoluto da construção do seu destino e dono único de suas ideias e comandante absoluto de suas ações e voz única portadora de seu discurso. Para esses autores o sujeito da ação ou sujeito da prática é determinado econômica-ideológica-jurídica-discursiva-materialmente. Concordamos com essa teoria. Mas isso implicaria que o indivíduo-corpo-inteligente não possuiria qualquer liberdade de escolha, por que é totalmente determinado? Em nossa posição, não. Ao contrário, a liberdade de escolha do indivíduo-corpo-inteligente desde sempre interpelado em sujeito de suas ações se dá tomando posição em relação dialética com as interpelações econômicas, com as interpelações ideológicas, com as interpelações jurídicas, com as interpelações discursivas, e, sobretudo, fazendo aqui uma extensão teórica dessa visão, a liberdade de escolha do indivíduo-corpo-inteligente desde sempre interpelado em sujeito de suas ações se dá tomando posição em relação dialética com as interpelações dos próprios objetos. Somos condenados a fazer escolhas: “somos condenados à liberdade”, estamos com Jean Paul Sartre nesse ponto!

Portanto, segundo nossa tese, levando a fundo essa concepção da liberdade material e socialmente determinada do sujeito, os objetos interpelam os indivíduos-corpos-consciências em sujeito de suas ações, o que significa que as ações dos indivíduos-corpos-consciências interpelados em sujeitos, em um nível bem profundo, são interpeladas pelos objetos. Como os objetos interpelam os indivíduos-corpos-inteligentes em sujeitos de suas ações? Desde sempre, desde que o indivíduo-corpo-inteligente começou a existir. O indivíduo-corpo-inteligente nasce misturado aos objetos da natureza, e esses objetos proporcionam-lhe desde sempre sensações de prazer ou sensação de desconforto, o que o faz ser tentado a escolher relacionar-se ou envolver-se com os objetos aprazíveis e a evitar os objetos desconfortáveis: reside aí, mesmo sendo determinada materialmente, a liberdade de escolha do indivíduo-corpo-inteligente, podendo escolher envolver-se ou não envolver-se com dados objetos que o interpelam. Obviamente, as condições econômicas, as condições ideológicas, as condições jurídicas, as condições discursivas também são decisivas em cercear-permitir alguns objetos ao indivíduo-corpo-inteligente, sejam estes desejados ou não, sejam estes aprazíveis ou não. Dessa formatação social-econômico-ideológica-jurídico-discursiva, limitar-se-á em grau maior ou menor a liberdade de escolha do indivíduo-corpo-inteligente em relação aos objetos, podendo torná-lo ou um burguês ou um simples trabalhador, ou um direitista ou um rebelde, ou um comunista, ou um zen, ou um socialista livre, etc.

De qualquer modo, o corpo-indivíduo-inteligente recebe um bombardeio diário de objetos, os quais seduzem, convidam, chamam atenção, provocam desejos arrebatadores, provocam medos terríveis, provocam fugas, provocam conflitos sobre possuí-los ou não possuí-los, sobre envolver-se ou não envolver-se com eles, enfim, a cada aqui e agora em que o indivíduo-corpo-inteligente se encontra, os objetos estão aí o INTERPELANDO, convidando-o à prática, convidando-o à ação, convidando-o à liberdade de escolha: pode ser uma guloseima, uma cerveja, uma pedra de crak, um animal peçonhento, um corpo de uma mulher bonita ou o corpo de um homem bonito, um programa de televisão, um jogo de futebol em andamento, uma criança faminta, um computador com internet, um CD de MPB ou de Funk, um carro zero, uma moto, uma sauna, uma campainha tocando, um telefonema à meia-noite, um tiroteio, um vaso sanitário sujo, um baile, uma geladeira vazia, uma casa suja, um barraco mofado, a falta de água na torneira, um texto escrito, uma fala dirigida a sua pessoa, um outdoor, um ônibus lotado, um torno mecânico, uma britadeira, uma enxada, uma foice, uma massa de cimento a ser carregada, uma máquina a ser dirigida por horas, enfim, podemos estender a lista ao infinito, mas o que importa aqui é explicitar nossa tese de que os objetos INTERPELAM os indivíduos-corpos-inteligentes em sujeitos de suas ações, levando-os a escolherem relacionar-se ou não relacionar-se com os diversos objetos que os/nos interpelam.

A liberdade do indivíduo-corpo-inteligente não é algo abstrato, ao contrário, se dá tomando posição e fazendo escolhas em relação à multidão de objetos que se apresentam na infinidade de aquis e agoras por que o indivíduo-corpo-consciência transita, envolvendo-se com os mesmos ou tentando afastar-se dos mesmos ou lutando por ter acesso aos mesmos ou lutando contra a presença dos mesmos, etc, sem esquecer, é claro, que o indivíduo-corpo-inteligente é constrito-limitado-influenciado-determinado pelas condições econômico-ideológico-jurídico-discursivas que ditam muito do que pode e do que não pode ser feito em relação às diversas interpelações dos objetos, o que, historicamente, tem provocado rebeldias ou assujeitamentos dos sujeitos a esses ditames sociais, colocando a disjuntiva de reproduzir as relações de organização dos objetos ou de revolucionar as relações de organização dos objetos.

É fato também que os objetos podem dominar inteiramente o indivíduo-corpo-inteligente, não lhe dando qualquer oportunidade de liberdade de escolha para ação ou para a prática: estar, inconsciente do perigo, em um prédio em ruínas, perigo, este, ainda não percebido por ninguém, pode significar simplesmente a morte dos indivíduos-corpos-inteligentes que ali estão, caso tenham o azar de o prédio desmoronar enquanto lá se encontram. Se se soubesse do risco, haveria a liberdade de escolha de lá entrar ou não, ou poder-se-ia ser um desencaixado social e nunca entrar em um prédio ou nunca andar de avião, etc, o que, obviamente, não evitaria o indivíduo-corpo-inteligente de estar em contato com outros objetos mortais, como, por exemplo, o mosquito da dengue ou outro vírus qualquer causador de uma doença contagiosa.

Quais os efeitos dessa teoria da interpelação dos objetos para a vida? Que o funcionamento da vida está na relação dialética entre indivíduo-corpo-inteligente versus mundo material objetivo. E ainda que sejamos assolados-inundados-atravessados o tempo todo pela interpelação dos objetos em nossa vida ainda possuímos a liberdade de escolha de envolver-se ou não se envolver com determinados objetos, inclusive, podendo reproduzir sua lógicas organizativas ou podendo lutar para promover reorganização-realocação-revolução no modo como se constroem as relações com os objetos.
Os objetos nos interpelam, podemos recusá-los ou aceitá-los ou criar outros! Tal relação é construída dialeticamente, podendo conservar-se ou mudar-se. Eis nossa liberdade, eis as condições da liberdade materialmente determinada, da qual ninguém pode escapar. Pode parecer um paradoxo para a lógica dos “excessivamente sérios”, mas o ser social (indivíduo-corpo-inteligente) é ao mesmo tempo determinado e ao mesmo tempo livre em relação às diversas interpelações que o convidam a se constituir no processo. Não rejeitamos a tese marxista da determinação econômico-jurídico-ideológico-material-discursiva, ao mesmo tempo em que não renunciamos a tese existencialista-marxista de que somos sujeitos livres para tomar posição e para fazer escolhas face às diversas interpelações: somos socialistas livres!

Por: Gílber Martins Duarte – Socialista Livre – Conselheiro do Sindute-MG e diretor da subsede do Sindute em Uberlândia – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais – Doutorando em Análise do Discurso/UFU – Membro da CSP-CONLUTAS.

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