O Desejo de Ser Importante: Doença Infantil do Capitalismo que afeta até a Esquerda Socialista!

O desejo de ser importante é estimulado a todo tempo pelo capitalismo. As propagandas, os governos, as instituições burguesas dizem: é preciso ter propriedades privadas para a pessoa ser a mais importante no mundo capitalista; é preciso ter dinheiro acumulado para a pessoa ser importante no mundo capitalista; é preciso ter capital para a pessoa sentir que é alguém na vida. Porém, o desejo de ser importante não atinge apenas os que possuem ideologias burguesas ou pequeno-burguesas. O desejo de ser importante é uma doença social que afeta a todos, e, lamentavelmente, até os militantes da esquerda socialista ou os militantes provenientes da classe trabalhadora carregam esses desvios infantis! É isso que vamos debater hoje!

Em nosso ponto de vista, essa doença é infantil justamente porque começa na infância. Desde cedo na vida, as crianças recebem elogios, recebem aplausos e ficam muito felizes por seguirem a ordem social. Mas desde cedo, também, as crianças recebem críticas, recebem advertências e ficam muito raivosas, muito nervosas, muito decepcionadas.

Na cultura econômico-jurídico-ideológico-social construída até hoje, a criança não é aceita em seus erros, não é aceita pelo ser que ela é, não é considerada alguém por simplesmente estar existindo. A criança é educada para se tornar alguém, ou seja, ela é um ninguém, sem importância social alguma. Ela precisa se tornar burguesa, pequeno-burguesa, trabalhadora honesta, etc, para ser um adulto importante… A criança não tem o direito de agir fora do que a ideologia dos adultos lhes impõe. A criança, então, percebe o jogo social e começa a ser política. Começa a batalhar para ver se agrada aos adultos, para ver se agrada à sociedade, para ver se se torna importante e vista com bons olhos.

Surge, assim, o desejo de ser importante! Se a criança percebe que está agradando, ela se sente importante, se sente dotada de valor; se a criança percebe que está desagradando, se percebe que está fora do que é esperado dela, então ela se sente um nada, um ninguém, um reprovado socialmente.

Dessa forma, a pessoa se torna adulta, mas suas emoções continuam infantis, o desejo de ser importante, o desejo de estar em evidência, o desejo de ser amado pelos outros, o desejo de ser útil a acompanha pela vida afora. Uns se encaixam bem na ordem econômico burguesa, realizam o sonho social de ser importante por ser dono de capital. Outros se conformam com o fato de serem trabalhadores honestos e se acham importantes por isso. Outros, porém, não se encaixam na ordem econômico-social, não veem ali a possibilidade de realizar seus sonhos de grandeza, e começam a procurar outras formas para se sentirem importantes, ou seja, buscam ser importantes por outros modos mais sutis. É o caso do desejo de ser importante que se manifesta no seio da esquerda socialista: “sou importante, porque tenho consciência de que todos querem ser importantes, inclusive eu!”; “sou importante, porque não estou à venda para a burguesia que se acha importante por um jeito muito feio, explorando os outros!”; “sou importante, porque eu sou o melhor lutador da classe operária!”; “sou importante, porque eu sou um dirigente de massas reconhecido!”; “sou importante, porque eu entrei-pertenço a um grupo partidário de pessoas importantes!”; “sou importante, porque sou um candidato que estou aparecendo na mídia!”; “sou importante, porque sou um líder sindical ovacionado pelas bases!”; “sou importante, porque eu luto pela Revolução Mundial!”. Enfim, nosso objetivo, nesse artigo, é debater essa contradição ideológica infantil que aparece no meio da esquerda socialista, que, muitas vezes, é acometida por essa doença infantil sem o saber.

Qual o problema dessa doença infantil na luta pelo socialismo? Porque essa doença não ajuda a formar militantes conscientes das batalhas econômico-ideológicas que estão em jogo, não ajuda formar militantes realmente fraternos e companheiros para criticarem e receberem críticas, quando esse é o único caminho de construir outra ordem econômico-jurídico-ideológica mundial. Por exemplo, por que a esquerda é tão desunida? Porque há uns tentando ser mais importantes do que os outros, tudo muito infantil. Muitos militam para se sentirem importantes na vida, para estarem em evidência, para fazerem seu partido estar em evidência, para fazerem seu cargo de direção ficar em evidência, esquecem-se de que a luta que precisa ser travada é muito maior e exige muito mais. Mudar o mundo é uma tarefa árdua, não é uma brincadeira de criança a procura de reconhecimento social.

É fácil de perceber: o militante ou o grupo de militantes que age para se sentir importante não tolera críticas, é evidente. As críticas representam uma ameaça para a autoimagem dessas pessoas. Ficam irritadas. O adulto está dando birra, porque não foi aclamado pela multidão. Cada um precisa olhar-se no espelho, se quisermos nos libertar da ideologia e da educação capitalista que nos foi imposta. No capitalismo, o jeito mais estimulado para ser importante é ganhando dinheiro ou obtendo poder. O burguês se sente muito importante por ser o dono da fábrica e por ser rico; o presidente da república se sente a pessoa mais necessária do país por ser o chefe de estado, por ser o mais poderoso. As pessoas do partido X também se acham o máximo por seu partido ser aclamado pelas massas. Essa é a doença coletiva. A esquerda socialista não pode seguir esse mesmo caminho por outros meios.

Nós, socialistas livres, pensamos o seguinte. Ninguém está imune a essa doença, por isso mesmo é preciso ter uma política para combatê-la: não devemos idolatrar ninguém, nem a nós mesmos, nem a partido algum. Ninguém precisa de poder e reconhecimento social para ser alguém. Se estamos vivos é porque já somos alguém. Nós, socialistas, devemos reverenciar a vida: estar vivo é o fato mais importante. Portanto, todos são importantes, porque todos estão vivos. Não tem essa de hierarquia, de líder superpoderoso, isso é muito infantil, essa é uma promoção de vaidades. Nós, da esquerda socialista, devemos lutar pela vida e pela valorização simplesmente da vida, com oportunidades materiais dadas a todos, porque não é justa a exclusão social e a exploração do ser humano por outro ser humano como o capitalismo faz. Nós, socialistas livres, não devemos lutar para nos sentirmos importantes, devemos lutar simplesmente porque amamos a vida e porque queremos que todos tenham direito a vida plena, com as riquezas distribuídas a todos que as produzem.

Ninguém é mais importante do que ninguém. E mais: se ninguém julga um Socialista Livre importante por pensar assim, podem nos criticar, não temos problema com isso, podem nos considerar um nada, não tem problema. Não precisamos de reconhecimento social para seguir na luta ou para sentir que somos alguém. Temos consciência de que estar vivo é a única coisa que importa: e porque gostamos de estar vivos, queremos consciência e justiça social para todos, queremos que todos desfrutem desse prazer, queremos o socialismo. Lutamos por amor à libertação da humanidade e da vida no planeta, não para sermos reconhecidos como “os militantes”, portanto, as críticas, o pluripartidarismo, não nos incomodam, ao contrário, ajudam-nos a refletir, a investigar melhor, a corrigir nossos erros.

O desejo de ser importante é mais uma doença gerada pela sociedade capitalista, então, se os socialistas não se livrarem desse mal, o socialismo também nascerá contaminado: burocracia sindical, burocracia estatal, estalinismos, são exemplos de como essa doença governa para fins nada nada socialistas! Como podem ver, ser Socialista Livre é uma militância cotidiana, mas também é uma filosofia e uma batalha travada contra os vícios que parecem naturais, legítimos, necessários e eternos e que estão dentro de cada um de nós. Por isso reafirmamos: o desejo de ser importante é um construção social bastante infantil: sustenta as vaidades capitalistas e é totalmente nociva para a democracia socialista a ser construída. Tem de ser combatido!

 

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Sobre socialistalivre

Esse Blog está a serviço da Luta pelo Socialismo. Defendemos a plena liberdade do ser humano, mas somos radicalmente contra a liberdade de explorar, como a burguesia faz, e contra a liberdade de oprimir como os machistas fazem, os racistas fazem, os homofóbicos fazem, os praticantes de bullying fazem, os preconceituosos fazem, os possessivos fazem e os autoritários de plantão fazem. Assim, defendemos que cada corpo-consciência deve ter liberdade de ser o que ESCOLHE SER, desde que esta liberdade não oprima e explore os outros! Defendemos a plena liberdade de postura crítica e a plena democracia operária, todos devem ter o direito de expressar o que pensam! Defendemos a Revolução Socialista e a necessidade de libertação da classe trabalhadora do jugo do capitalismo. No entanto,somos contra comandos de hierarquias políticas ou de figuras públicas mais poderosas no seio dos lutadores que travam a batalha pelo socialismo. Defendemos que cada militante deve ousar pensar por si mesmo, cada militante deve ter o direito de concordar, mas também de discordar daquilo que julga equivocado, por isso nos definimos como Socialistas Livres e esse Blog está a serviço dos que desejam militar de acordo com essa concepção. Convidamos a todos a conhecerem nosso jeito diferente de entender e de praticar a política socialista, com liberdade, democracia operária, direito de crítica e respeito ao diferente. Saudações Socialistas Livres.
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5 respostas para O Desejo de Ser Importante: Doença Infantil do Capitalismo que afeta até a Esquerda Socialista!

  1. ranis feratus disse:

    Saravah mizifi!

  2. Heliene disse:

    É um modo diferente de encarar o mundo e as relações humanas. É necessário se queremos ser realmente livres, se queremos escapar das malhas tecidas pela ideologia do capital. É nesse sentido que ser livre torna-se realmente possível. Só me preocupa um pequeno detalhe: devemos nos manter vigilantes para que não caiamos em novas armadilhas ideológicas.O velho fantasma do capitalismo vestido com outras roupagens e com o nome diferente voltando a nos assombrar.
    Hrc

  3. Gip disse:

    Olá a todos!

    Primeiramente, gostaria de entender essa proposta de ser livre, mas “sendo vigilante para não cair nessas armadilhas”? Não seria algo contraditório?

    Sou do tempo do “A burguesia fede”, sendo cantada por um burguês. Não diminuo a importância do trabalho do Cazuza. Apesar de ser fã, enxergo e ressalto o paradoxo que repete-se ao longo dos tempos, nos mais diversos campos da nossa sociedade.

    Mas afinal que ideário socialista é esse, no qual o burguês é sempre um homem vil, culpado de todos os males da sociedade? Ser burguês seria um pecado? Almejar bens (e trabalhar para isso) seria o maior de todos os males? Ou será que o burguês não seria um estereótipo da evolução das sociedades, que deixaram o escambo (inviável na época atual) em função do comércio propriamente dito?

    Acredito que tudo depende de um ponto de vista. Para pessoas com algum dinheiro, o Eike Batista é um burguês. Para pessoas pobres, uma pessoa com algum dinheiro é rico. E para pessoas miseráveis, qualquer coisa que o outro tenha é sinônimo de riqueza, seja uma blusa de malha normal ou um boné, uma casa simples de vila, ou um prato de comida. Se considerarmos este aspecto, todos somos burgueses, afinal temos computador, acesso à internet, educação, cultura, sem os quais jamais estaríamos aqui postando nossos pensamentos e opiniões!

    Se a burguesia resume o “que não presta”, não vale como ideal a ser seguido, não deveríamos nem cogitar a possibilidade de estar neste “cyber espaço”. Não deveríamos trabalhar para comprar nada. Nem celular, nem computador…nem roupa…nem comida.

    Acreditar que é obrigação do Governo dar-nos tudo, enquanto não trabalhamos, que é obrigação redistribuir a renda, é pensar no Governo como um Pai e assumir a postura do irmão invejoso que não se esforçou para conseguir algo, portanto um socialismo igualmente infantil como o desejo de ser importante. Não há como se falar em tratamento igualitário, quando as pessoas são tão diferentes. Um filho pode ser mais estudioso e desejar continuar seus estudos(e o pai fornecer subsídios para isso), enquanto que o irmão mal terminou o ensino médio e não pensa em estudar. O pai estaria sendo injusto em patrocinar os estudos daquele? O pai, a fim de se justo, seria obrigado a dar o mesmo valor ao outro, para que gaste como desejar, mesmo que fosse para a “bagunça”?

    Se numa família, não conseguimos colocar em prática a questão igualitária, afinal as pessoas são diferentes e possuem pretensões diferentes, como faríamos com a sociedade? Todos desejam o mesmo para si? Aqueles que não conquistaram nada são apenas vítimas, enquanto os que possuem bens são os vilões? 

    Não há como dividir o mundo em preto ou branco, ou branco e colorido, ou preto e colorido. Existe o pobre que não teve oportunidade; assim como o pobre que teve oportunidade e não aproveitou; ou ainda o pobre que não teve oportunidade, mas buscou meios de mudar sua situação; e também o pobre que teve oportunidade e aproveitou-a e hoje é taxado de: o malvado burguês. Sim, ele é culpado de querer conforto, de querer melhorar, de querer que seus filhos não passem pelo que ele passou. Culpado de querer “evoluir”. Será que a equação da sociedade reduz-se a “Todo burguês é mal, logo todo pobre é bom”?

    O reducionismo e o maniqueísmo estão a serviço dos alienados, dos manipuladores, os quais usam as boas intenções para desvirtuar as verdades(não existe apenas uma). O socialismo é lindo, como filosofia, mas não deu certo, tanto que os países socialistas sucumbiram ao capitalismo. Vimos que o socialismo serviu para os pobres, enquanto os governantes continuaram com suas riquezas (e até aumentaram) e ficaram de fora da retaliação.

    Se há um mal nas sociedades, não é o burguês: é deixar-se governar por verdades absolutas, sem admitir a existência da pluralidade humana e suas necessidades.

    O mal é o governo: seja ele capitalista, ou socialista. Seja o “governo” do professor, do sociólogo, do padre, do pastor, do prefeito ou presidente. O mal está entranhado em qualquer um que diga: tem que ser assim, esta é a verdade, isso é o certo! 

    Não acredito em termos como burguesia, proletariado, capitalismo, socialismo, acredito na liberdade.

    A liberdade é o maior de todos os dons, seja liberdade de pensamento ou de ação. 

    Admitir que erramos, tentar outros caminhos, querer o melhor para a família, querer o melhor para a sociedade e trabalhar para isso, é caminhar para a evolução, é demonstrar maturidade.

    Repito: não há uma verdade absoluta! Tudo é relativo!

    Abs,

  4. Talita disse:

    Gostei do texto. Semanas atrás discuti essa questão, mas utilizei como exemplo as redes sociais, é um exemplo evidente da importância social. Abraços!

  5. Arn disse:

    “Não tem essa de hierarquia, de líder superpoderoso, isso é muito infantil, essa é uma promoção de vaidades”.

    Não sei qual infantilidade é pior: se é a vontade de se sentir importante ou se é a anarquia.
    Infantil é desejar um mundo sem nenhuma coerção de lei e desejar que todo mundo coopere com todo mundo, pressupondo que todo mundo é bonzinho.
    Fazer o quê…

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